CORAÇÃO NEGRO

O caminhão de mudança chegou durante a madrugada transportando meia dúzia de móveis eeletrodomésticos, o suficiente para mobiliar a minúscula casa de esquina. Assim que o sol bebeu o último orvalho, o novo morador passeou pelo bairro, e a primeira pessoa que encontrou foi o negro dono da banca de jornal. Depois de avaliar a … Ler maisCORAÇÃO NEGRO

TIRE A ROUPA

Quase não dormiu nas noites que antecederam àquele final de semana. A decisão foi difícil. Reconsiderou algumas vezes, mas acabou cedendo à vozinha pecaminosa que rechaçava a consciência: “Olhar não tira pedaço! Olhar não tira pedaço!”. Decidiu não contar a ninguém, pois segredo dividido é fósforo aceso num monte de palha seca. A esposa participaria … Ler maisTIRE A ROUPA

FEIO PRA CACHORRO

Usava óculos fundos de garrafa; sem eles, não enxergava um palmo diante do nariz. Mas estava confiante, pois, depois de meses de espera, às 16 horas, do outro lado da cidade, Dr. K. Olhão iria atendê-la. Escolhera-o por dois motivos: era o melhor oftalmologista da região e, diziam, um colírio para os olhos. Naquele dia, … Ler maisFEIO PRA CACHORRO

CASAMENTO À MODA ANTIGA

Era na cozinha que vovó se sentava no banquinho de madeira, ao lado do fogão de lenha. Enquanto esperava o bolo de fubá assar e o chiado da chaleira para coar o café, abria o baú de relíquias e contava os mais variados casos: Antigamente, casamentos eram arranjados pelos pais, que escolhiam os noivos para … Ler maisCASAMENTO À MODA ANTIGA

RIQUEZA CAIPIRA

O sol chicoteava o forasteiro que se arrastava pela estrada poeirenta e pedregosa. O terno amarelo-ouro estava encharcado pelo suor. A camisa de cetim, colada à pele. Os pés moídos multiplicavam bolhas. O eixo do automóvel se quebrara ao enfrentar cratera mais profunda. Após avaliar o estrago, tentou acionar o seguro. Mas, naquele fim de … Ler maisRIQUEZA CAIPIRA

A CARA DO PAI

Um metro e noventa de altura. Noventa e dois quilos. Mais branco do que o leite. Quase transparente. Por isso, braços e pernas escancaravam cartografias arteriais. Os cabelos e a barba imitavam fios de sol; os olhos, o céu desanuviado. Devido à compleição europeia recebeu, na infância, a alcunha de Alemão. Alemão casou-se com anamoradinha … Ler maisA CARA DO PAI

AO PÉ DA LETRA

Foram os filmes que assistiu na casa dos avós que despertaram nele o desejo de ser super-herói. Durante a infância, importunou a avó para que fizesse capas, máscaras e outras fantasias. E ela, com paciência de Jó, sentava-se à máquina de costura e produzia sonhos. Ao avô sobravam outras incumbências, como providenciar espadas, escudos e … Ler maisAO PÉ DA LETRA

OLHOS DO CORAÇÃO

O senhor W.W. morava só, na casa sem reboco de portão enferrujado. Para chegar à porta de entrada precisava escalar o entulho que esmagava o vestígio de jardim. De vez em quando, alguma Maria-sem-vergonha se desvencilhava dos escombros e teimava viver brevidade. Ao lado da casa, quaresmeira seca debruçada no telhado se esquecera das primaveras. … Ler maisOLHOS DO CORAÇÃO

SOBRE SALTO

O hálito do outono depenava a tarde. Em breve, a noite envolta no cachecol de estrelas assumiria o trono do tempo. Enquanto isso, no edifício anônimo aninhado na Alameda dos Rouxinóis, o impasse se arrastava. Em passos minúsculos o protagonista se esgueirava pela sacada do oitavo andar e arriscava olhadelas para baixo. Via e ouvia … Ler maisSOBRE SALTO

ESTAÇÃO BARRA FUNDA

Cansado de lavourar e de namoricar “franguinhas caipiras”, Zétião estava de mala e cuia prontas: deixaria a roça para ganhar a vida na capital e conhecer mulheres capa de revista. – Cê vai vê. Vô ficá rico sem pegá na inxada e casá Cuma muié bunitona. Vô prenhá ela eenchê a casa de bacurizinho. – … Ler maisESTAÇÃO BARRA FUNDA

SE A MODA PEGA

A loira chegou no meio da madrugada acompanhada de serviçais: a senhora grisalha e o rapazote. Estabeleceram-se no enorme sobrado de esquina, em bairro paulistano. Pela manhã, ginasticou em corrida moderada pelo jardim, sob olhares da vizinhança curiosa. Era mulher escandalosamente linda: corpo longilíneo, olhos cor de mel, cabelos levemente ondulados roçando os ombros. Seus … Ler maisSE A MODA PEGA

COM A MORTE NÃO SE BRINCA

Depois de incontáveis rescisões contratuais, Zé Molenga estava novamente empregado. O preguiçoso conseguira vaga na Funerária Bonfim, localizada no Beco Sem Saída. O dono do estabelecimento, sabedor da fama do recém-contratado, fez severa advertência: – Vagabundo aqui, só morto, porque dá lucro. Tá entendido? -Fique tranquilo. Meu nome agora é trabalho. Sob a inspeção ferrenha … Ler maisCOM A MORTE NÃO SE BRINCA