Proseando

motim

Relâmpagos rasgavam o céu noturno açulando o oceano, enquanto trovões mergulhavam no intuito de despertar Netuno. O vento uivava sinfonias fúnebres. No pequeno bote de madeira, sobreviventes enfrentavam ondas gigantescas do Atlântico. - Vamos morrer! O comandante engolia o agouro e tentava ...

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NÃO VOTE EM BRANCO

Barnabé era homem simples, de bom caráter, temente a Deus. Incapaz de fazer mal a uma formiga. Morava na roça com a mulher e seis filhos. Juca era o dono da venda, o amigo de infância que fora estudar na capital. ...

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A MOÇA DO LEQUE

O casarão antiquíssimo de esquina tinha nova moradora. A moça tímida abandonara o casebre para habitar o imóvel, herança da madrinha. Ninguém a viu chegar. Provavelmente, se estabelecera na calada da noite. Aparecia raramente, por minguados minutos, debruçada na janela, com ...

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ARTE CANINA

Amante da arte renascentista, não conseguia digerir certas exposições que esparramavam peças esdrúxulas em museus ou espaços para esses fins. Evitava verbalizar opinião por considerar-se possuidor de pouco, ou nenhum recurso para avaliar obras desse catálogo. E o silêncio causava-lhe ...

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O PUXA-SACO

Funcionário de pouca eficiência, garantia-se no emprego aprimorando-se no puxa-saquismo que causava náuseas nos colegas. Bastava um espirro para se levantar, retirar o tecido do bolso e antecipar-se aos lenços de papel. Em gesto adocicado, oferecia a seda azul bordada com ...

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CÃO QUE LATE NÃO MORDE

Morar em apartamento requer disciplina quase militar. O regramento aprovado em assembleia geral elenca proibições que visam preservar a política da boa vizinhança. Mas, embora o regimento interno estabeleça multa ao condômino que desrespeitar qualquer de seus itens, brotam, em ...

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CREME DE AMENDOIM PARA CUNHADO CHATO

O relógio empoeirado, pendurado na parede que implorava por demãos de tinta, resolveu amarrar o tempo. Os ponteiros preguiçosos insinuavam greve, para desespero do chefe da repartição. Não fosse a urgência dos relatórios, estaria em casa, concentrado no futebol. O olhar ...

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FURTO NO SUPERMERCADO

A ruiva e a loira tinham a mesma compleição física: magérrimas quais pau de virar tripa, incisivos que ultrapassavam o lábio inferior, cabelos desgrenhados, estrábicas. Diziam-nas irmãs, mas eram somente vizinhas. A ruiva, viciada em objetos de grife, gostava de ...

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DESENCONTRO

Sr. W era um quarentão que jamais trabalhara, mas isso não o obstruía de usar roupas caras e frequentar locais badalados na capital paulista, sempre em companhia de belas mulheres. Essas regalias eram forçosamente patrocinadas pela pensão que a mãe ...

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FORÇA NA PERUCA

Depois de anos a fio dedicados à devastação capilar, o tempo regenerou-se e interrompeu o prolongamento da minha testa. Os fios sobreviventes, levo-os para aparos periódicos em barbearia no centro da cidade onde encontrei, sábado passado, o general numa das ...

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O SUMIÇO DA IRMÃ

Preta e Morena, embora morassem em bairros distantes, se encontravam todos os meses no centro da cidade. Cumprimentavam-se e caminhavam até a agência bancária onde resgatavam a aposentadoria; depois, cumpriam o roteiro tradicional. Não foi diferente no mês da greve ...

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CAFÉ AMARGO

Cursava o sexto semestre de Direito e trabalhava como secretária em escritório advocatício na Avenida Paulista. Nos intervalos vespertinos, atravessava a rua e saboreava croissant acompanhado do melhor macchiato com caramelo da capital. Apreciava a cafeteria devido à clientela sofisticada. ...

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