RIQUEZA CAIPIRA

O sol chicoteava o forasteiro que se arrastava pela estrada poeirenta e pedregosa. O terno amarelo-ouro estava encharcado pelo suor. A camisa de cetim, colada à pele. Os pés moídos multiplicavam bolhas. O eixo do automóvel se quebrara ao enfrentar cratera mais profunda. Após avaliar o estrago, tentou acionar o seguro. Mas, naquele fim de … Ler maisRIQUEZA CAIPIRA

A CARA DO PAI

Um metro e noventa de altura. Noventa e dois quilos. Mais branco do que o leite. Quase transparente. Por isso, braços e pernas escancaravam cartografias arteriais. Os cabelos e a barba imitavam fios de sol; os olhos, o céu desanuviado. Devido à compleição europeia recebeu, na infância, a alcunha de Alemão. Alemão casou-se com anamoradinha … Ler maisA CARA DO PAI

AO PÉ DA LETRA

Foram os filmes que assistiu na casa dos avós que despertaram nele o desejo de ser super-herói. Durante a infância, importunou a avó para que fizesse capas, máscaras e outras fantasias. E ela, com paciência de Jó, sentava-se à máquina de costura e produzia sonhos. Ao avô sobravam outras incumbências, como providenciar espadas, escudos e … Ler maisAO PÉ DA LETRA

OLHOS DO CORAÇÃO

O senhor W.W. morava só, na casa sem reboco de portão enferrujado. Para chegar à porta de entrada precisava escalar o entulho que esmagava o vestígio de jardim. De vez em quando, alguma Maria-sem-vergonha se desvencilhava dos escombros e teimava viver brevidade. Ao lado da casa, quaresmeira seca debruçada no telhado se esquecera das primaveras. … Ler maisOLHOS DO CORAÇÃO

SOBRE SALTO

O hálito do outono depenava a tarde. Em breve, a noite envolta no cachecol de estrelas assumiria o trono do tempo. Enquanto isso, no edifício anônimo aninhado na Alameda dos Rouxinóis, o impasse se arrastava. Em passos minúsculos o protagonista se esgueirava pela sacada do oitavo andar e arriscava olhadelas para baixo. Via e ouvia … Ler maisSOBRE SALTO

ESTAÇÃO BARRA FUNDA

Cansado de lavourar e de namoricar “franguinhas caipiras”, Zétião estava de mala e cuia prontas: deixaria a roça para ganhar a vida na capital e conhecer mulheres capa de revista. – Cê vai vê. Vô ficá rico sem pegá na inxada e casá Cuma muié bunitona. Vô prenhá ela eenchê a casa de bacurizinho. – … Ler maisESTAÇÃO BARRA FUNDA

SE A MODA PEGA

A loira chegou no meio da madrugada acompanhada de serviçais: a senhora grisalha e o rapazote. Estabeleceram-se no enorme sobrado de esquina, em bairro paulistano. Pela manhã, ginasticou em corrida moderada pelo jardim, sob olhares da vizinhança curiosa. Era mulher escandalosamente linda: corpo longilíneo, olhos cor de mel, cabelos levemente ondulados roçando os ombros. Seus … Ler maisSE A MODA PEGA

COM A MORTE NÃO SE BRINCA

Depois de incontáveis rescisões contratuais, Zé Molenga estava novamente empregado. O preguiçoso conseguira vaga na Funerária Bonfim, localizada no Beco Sem Saída. O dono do estabelecimento, sabedor da fama do recém-contratado, fez severa advertência: – Vagabundo aqui, só morto, porque dá lucro. Tá entendido? -Fique tranquilo. Meu nome agora é trabalho. Sob a inspeção ferrenha … Ler maisCOM A MORTE NÃO SE BRINCA

PÉS DE GALINHA

Quando o carteiro lhe entregou a correspondência, entre os inúmeros boletos de cobrança havia o envelope com letras douradas. Sem dar importância ao “intruso”, abandonou o pacote sobre a mesa. Foi a esposa quem teve coragem de inspecionar as missivas. – Meu irmão voltou, Tião.Mandou convite prum jantar na casa dele. Semana que vem. – … Ler maisPÉS DE GALINHA

VALSA DA DESPEDIDA

Ao assumir modesto cargo na agência bancária da cidadezinha que não aparecia em mapa algum, prometeu a sique gerenciaria uma das filiais na capital paulista. Desde então,executava as atividades com dedicação, rapidez e eficiência. Entretanto,somente isso não o habilitava a qualquer promoção. Era preciso fazer algo que estampasse o seu nome na diretoria. Após avaliar … Ler maisVALSA DA DESPEDIDA

PLANTÃO DA MADRUGADA

– Sente-se. – Brigado, dotô. – O que o senhor tem? – O que co tenho? Um tiquinho de nada, dotô. Três galinha, um galo, o casar de porco, dois cachorro, o maiadinho, a muié, os oito fio… – Perguntei o que o senhor tem pra procurar um médico. – O que co tenho? Sei … Ler maisPLANTÃO DA MADRUGADA