A CONFISSÃO DE INOCÊNCIO

– Padre, eu vim me confessar. – Senhor Inocêncio, já disse ao senhor que seus pecadilhos dispensam confissão. Deus os sabe inofensivos. – Mas, padre… – Não se torture por bobagens. A senhor é incapaz de cometer qualquer ato lesivo. – Era, padre. Era. De uns tempos pra cá sou a mais pecaminoso do seu … Ler maisA CONFISSÃO DE INOCÊNCIO

BANHO QUE VALE CARRO

O fato aconteceu no distante ano de 1947. Para alavancar as vendas e afastar de vez a concorrência, certo fabricante de sabonetes prometera automóvel 0km a quem encontrasse chave dentro de seus produtos. Os irmãos da Rua Sem Nome, exceto o primogênito, investiram toda a economia na aquisição dos sabonetes, supostamente, premiados. A partir de … Ler maisBANHO QUE VALE CARRO

CARTA AO PAPAI NOEL

No refeitório, após a última garfada, resolveu abrir o envelope. – Bilhetinho da namorada? Meneando a cabeça, explicou ao chefe de produção que todos os anos ia ao Correio e escolhia, aleatoriamente, uma das inúmeras cartinhas que crianças carentes escreviam para pedir presentes ao Papai Noel. O escolhido, ou a escolhida, teria o pedido realizado. … Ler maisCARTA AO PAPAI NOEL

Azeitonas? Nunca mais

Minha esposa enfatizou riscos de estripulias na tentativa de convencer a mãe em não fazê-las. Entretanto, sabendo que a velha era teimosa e indomesticável, me cobriu de beijos e implorou: – Benzinho, vai lá você comprar o remédio pra mamãe, vai. – Agora? Impossível! Só se for depois do jogo. – Depois não dá. Ela … Ler maisAzeitonas? Nunca mais

PADARIA PORTUGUESA

Sem prole e sem parentes, a viuvez reascendeu-lhe o desejo de se fixar no Brasil. Por isso, naquele mesmo mês, o lisboeta vendeu tudo o que possuía e cruzou o Atlântico, instalando-se num modesto hotel, em terras paulistanas. Nos primeiros dias, investigou o potencial mercadológico e, somente após avaliar os riscos, adquiriu imóvel comercial e … Ler maisPADARIA PORTUGUESA

motim

Relâmpagos rasgavam o céu noturno açulando o oceano, enquanto trovões mergulhavam no intuito de despertar Netuno. O vento uivava sinfonias fúnebres. No pequeno bote de madeira, sobreviventes enfrentavam ondas gigantescas do Atlântico. – Vamos morrer! O comandante engolia o agouro e tentava insuflar otimismo na tripulação. – Sejam firmes, marujos! Sejam firmes! Daqui a pouco … Ler maismotim

NÃO VOTE EM BRANCO

Barnabé era homem simples, de bom caráter, temente a Deus. Incapaz de fazer mal a uma formiga. Morava na roça com a mulher e seis filhos. Juca era o dono da venda, o amigo de infância que fora estudar na capital. Formara-se na USP, mas, devido a saudade da terra natal, não se estabelecera na … Ler maisNÃO VOTE EM BRANCO

A MOÇA DO LEQUE

O casarão antiquíssimo de esquina tinha nova moradora. A moça tímida abandonara o casebre para habitar o imóvel, herança da madrinha. Ninguém a viu chegar. Provavelmente, se estabelecera na calada da noite. Aparecia raramente, por minguados minutos, debruçada na janela, com leque imóvel a esconder-lhe a boca. Era tímida. Muito tímida. O rapaz, morador do … Ler maisA MOÇA DO LEQUE

ARTE CANINA

Amante da arte renascentista, não conseguia digerir certas exposições que esparramavam peças esdrúxulas em museus ou espaços para esses fins. Evitava verbalizar opinião por considerar-se possuidor de pouco, ou nenhum recurso para avaliar obras desse catálogo. E o silêncio causava-lhe desconforto. A fim de não ser leviano em considerações, há muito procurava fundamento que o … Ler maisARTE CANINA

O PUXA-SACO

Funcionário de pouca eficiência, garantia-se no emprego aprimorando-se no puxa-saquismo que causava náuseas nos colegas. Bastava um espirro para se levantar, retirar o tecido do bolso e antecipar-se aos lenços de papel. Em gesto adocicado, oferecia a seda azul bordada com o nome do chefe em letras douradas. – Deus te crie e te dê … Ler maisO PUXA-SACO

CÃO QUE LATE NÃO MORDE

Morar em apartamento requer disciplina quase militar. O regramento aprovado em assembleia geral elenca proibições que visam preservar a política da boa vizinhança. Mas, embora o regimento interno estabeleça multa ao condômino que desrespeitar qualquer de seus itens, brotam, em quase todos os edifícios, aqueles que se consideram acima da lei. Por exemplo: não há … Ler maisCÃO QUE LATE NÃO MORDE

CREME DE AMENDOIM PARA CUNHADO CHATO

O relógio empoeirado, pendurado na parede que implorava por demãos de tinta, resolveu amarrar o tempo. Os ponteiros preguiçosos insinuavam greve, para desespero do chefe da repartição. Não fosse a urgência dos relatórios, estaria em casa, concentrado no futebol. O olhar de “não fale comigo, senão eu mordo”, apenas se deteriorou quando, finalmente, o relógio … Ler maisCREME DE AMENDOIM PARA CUNHADO CHATO