DESENCONTRO

Sr. W era um quarentão que jamais trabalhara, mas isso não o obstruía de usar roupas caras e frequentar locais badalados na capital paulista, sempre em companhia de belas mulheres. Essas regalias eram forçosamente patrocinadas pela pensão que a mãe recebia do finado coronel. As mulheres que saiam com ele eram seduzidas através das redes … Ler maisDESENCONTRO

FORÇA NA PERUCA

Depois de anos a fio dedicados à devastação capilar, o tempo regenerou-se e interrompeu o prolongamento da minha testa. Os fios sobreviventes, levo-os para aparos periódicos em barbearia no centro da cidade onde encontrei, sábado passado, o general numa das cadeiras, à espera da tesoura. – Só as pontas, soldado. Desobedeça-me e irá apodrecer no … Ler maisFORÇA NA PERUCA

O SUMIÇO DA IRMÃ

Preta e Morena, embora morassem em bairros distantes, se encontravam todos os meses no centro da cidade. Cumprimentavam-se e caminhavam até a agência bancária onde resgatavam a aposentadoria; depois, cumpriam o roteiro tradicional. Não foi diferente no mês da greve dos caminhoneiros, quando legumes, verduras e demais alimentos atingiram preços estratosféricos. O primeiro estabelecimento frequentado … Ler maisO SUMIÇO DA IRMÃ

CAFÉ AMARGO

Cursava o sexto semestre de Direito e trabalhava como secretária em escritório advocatício na Avenida Paulista. Nos intervalos vespertinos, atravessava a rua e saboreava croissant acompanhado do melhor macchiato com caramelo da capital. Apreciava a cafeteria devido à clientela sofisticada. Conhecera, há poucas semanas, as irmãs médica e empresária. O primeiro contato só aconteceu porque … Ler maisCAFÉ AMARGO

PECHINCHA NO BRECHÓ

A velha esgrouvinhada, trazia os dedos pressionando as palmas das mãos. Não, não se tratava de artrite. Sovinice mesmo. Viúva, era proprietária de inúmeros imóveis e contas bancárias milionárias no país e exterior, herdados com a morte do marido. Residia no Jardim América, na capital, em mansão que implorava reformas. Era tão sovina, mas tão … Ler maisPECHINCHA NO BRECHÓ

MEIAS-ENTRADAS

Barbeou-se demoradamente, contemplando-se todos os ângulos, ensaiando olhares e sorrisos. Escovou os dentes e aspirou o hálito. Desnudou-se e se demorou no banho. Depois, enxugou-se e derramou perfume importado em locais estratégicos. Alinhou fios dourados. Cofiou o bigode. Vestiu-se com o que tinha de melhor para proteger-se do inverno. Iria ao cinema com a namorada. … Ler maisMEIAS-ENTRADAS

FINAL DE CAMPEONATO

Televisor ligado. Sobre a mesinha de centro da sala, cerveja estupidamente gelada acompanhava porção de linguiça calabresa acebolada. Preparou tudo meia hora antes, depois do banho. Vestiu-se como se também fosse entrar em campo. Até chuteira calçou. Vestiu o “manto sagrado”: camisa número 10, velha, descorada, que jurava trazer sorte. Não funcionou na primeira partida. … Ler maisFINAL DE CAMPEONATO

CINCO CENTAVOS

– Não estou suportando mais olhar pra cara de sua mãe. Ela vive me comparando com seu antigo namorado: “Fernandinho tem duas BMW. Você, só um caco velho!”. “Fernandinho é homem fino. Você, não fecha a boca enquanto come”. “Fernandinho é o homem perfeito para minha filha!”. Fernandinho isso, Fernandinho aquilo. Não aguento mais! A … Ler maisCINCO CENTAVOS

UM AMOR DE SOGRA

O metalúrgico cumprira mais um expediente naquela madrugada.Chegara triturado, moído qual carne de segunda em plena sexta-feira, desmoronando-se no sofá da sala. A energia que lhe restara, usara para alforriar os dedos espremidos das botas desconfortantes e esparramar-se no leito. As pálpebras não suportaram o cansaço. – Tá pensando que minha filha é escrava pra … Ler maisUM AMOR DE SOGRA

UNIDOS PELA MORTE

Tímido ao extremo, depois de protelar por meses, finalmente resolveu confessar o amor que nutria pela moça da loja no shopping. Para isso, passara madrugadas elaborando a abordagem, a fim de que o momento fosse inesquecível. Decidira que compraria flores e anel de ouro para impressioná-la. Entretanto, há meses estava desempregado e suas economias, extintas. … Ler maisUNIDOS PELA MORTE

LIVROS, UM TESOURO INCALCULÁVEL

Não se intimidava com o número de páginas. Quantas mais, melhor. Devorava-os em qualquer local: filas, ônibus, durante as refeições, antes de dormir. Chegou a ler algumas vezes debaixo do chuveiro, sob guarda-chuva. Mas desistiu depois que um livro lhe escapuliu para executar nado livre. Às vezes, caminhando pelas calçadas, livro em punho, colide com … Ler maisLIVROS, UM TESOURO INCALCULÁVEL

UM NAMORADO PARA A MANICURE

Girar a chave para abrir a porta do estabelecimento produzia um som que a fazia suspirar. Só ela sabia do sacrifício que fizera ao economizar cada centavo para realizar o sonho que a tirou da espremida sala de sua minúscula casa. O salão, embora modesto, era bem arrumadinho e disputado pela alta sociedade. A frequência … Ler maisUM NAMORADO PARA A MANICURE