FINAL DE CAMPEONATO

Televisor ligado. Sobre a mesinha de centro da sala, cerveja estupidamente gelada acompanhava porção de linguiça calabresa acebolada. Preparou tudo meia hora antes, depois do banho. Vestiu-se como se também fosse entrar em campo. Até chuteira calçou. Vestiu o “manto sagrado”: camisa número 10, velha, descorada, que jurava trazer sorte. Não funcionou na primeira partida. … Ler maisFINAL DE CAMPEONATO

CINCO CENTAVOS

– Não estou suportando mais olhar pra cara de sua mãe. Ela vive me comparando com seu antigo namorado: “Fernandinho tem duas BMW. Você, só um caco velho!”. “Fernandinho é homem fino. Você, não fecha a boca enquanto come”. “Fernandinho é o homem perfeito para minha filha!”. Fernandinho isso, Fernandinho aquilo. Não aguento mais! A … Ler maisCINCO CENTAVOS

UM AMOR DE SOGRA

O metalúrgico cumprira mais um expediente naquela madrugada.Chegara triturado, moído qual carne de segunda em plena sexta-feira, desmoronando-se no sofá da sala. A energia que lhe restara, usara para alforriar os dedos espremidos das botas desconfortantes e esparramar-se no leito. As pálpebras não suportaram o cansaço. – Tá pensando que minha filha é escrava pra … Ler maisUM AMOR DE SOGRA

UNIDOS PELA MORTE

Tímido ao extremo, depois de protelar por meses, finalmente resolveu confessar o amor que nutria pela moça da loja no shopping. Para isso, passara madrugadas elaborando a abordagem, a fim de que o momento fosse inesquecível. Decidira que compraria flores e anel de ouro para impressioná-la. Entretanto, há meses estava desempregado e suas economias, extintas. … Ler maisUNIDOS PELA MORTE

LIVROS, UM TESOURO INCALCULÁVEL

Não se intimidava com o número de páginas. Quantas mais, melhor. Devorava-os em qualquer local: filas, ônibus, durante as refeições, antes de dormir. Chegou a ler algumas vezes debaixo do chuveiro, sob guarda-chuva. Mas desistiu depois que um livro lhe escapuliu para executar nado livre. Às vezes, caminhando pelas calçadas, livro em punho, colide com … Ler maisLIVROS, UM TESOURO INCALCULÁVEL

UM NAMORADO PARA A MANICURE

Girar a chave para abrir a porta do estabelecimento produzia um som que a fazia suspirar. Só ela sabia do sacrifício que fizera ao economizar cada centavo para realizar o sonho que a tirou da espremida sala de sua minúscula casa. O salão, embora modesto, era bem arrumadinho e disputado pela alta sociedade. A frequência … Ler maisUM NAMORADO PARA A MANICURE

FALTOU O RECHEIO

Naquele 24 de junho de frio glacial fui convidado para uma festa junina na roça, região da Serra da Mantiqueira. Gosto das festas juninas com barraquinhas onde vendem arroz doce, bolo de milho, pé-de-moleque, quentão e tantas outras. Gosto daquelas que têm fogueira, pau de sebo, correio elegante e sanfoneiro tocando “Isto é lá com … Ler maisFALTOU O RECHEIO

O PERIGO DAS ROLHAS

O publicitário passou a madrugada ensaiando. Não podia cometer erros. Era o primeiro desafio desde que deixara a agência Spelunka. Embora fosse concorrer com três das maiores agências de publicidade do país, estava confiante. A avaliação seria à tarde, no 18º andar de um luxuoso edifício na Avenida Paulista. Foi de táxi. Pagou ao motorista, … Ler maisO PERIGO DAS ROLHAS

MADAME FILÓ

O ritual se repetia em todas as manhãs. Antes de ir para o escritório o marido fingia beijos carinhosos e ela acreditava. Depois dos beijos ele fechava a porta e ela ia espiá-lo pelas frestas da persiana. Precisava ter certeza de que não voltaria, pois não queria correr risco de ser flagrada retirando a mala … Ler maisMADAME FILÓ

PASTEL DE CARNE

Ele era um vigilante sanitário incorruptível, temido por aqueles que tentavam burlar a lei. Por isso, colecionava ameaças, mas em momento algum amansava a caneta. Seus dias eram compridos, penosos, estafantes. Somente removia o estresse quando chegava em casa e pegava Bichano no colo. O angorá ronronava cheio de dengo. Outro dia, chegou mais cedo, … Ler maisPASTEL DE CARNE

TIQUINHO DE NADA

O fato aconteceu durante as férias, em um verão longínquo. Um amigo me convidou para irmos ao litoral flertar lindas mulheres. Recusei, dizendo que não tinha um real no bolso, que ficaria para outra oportunidade. Ele me convenceu dizendo que assumiria todos os gastos. No dia seguinte, já estávamos num quiosque à beira-mar, bebendo cerveja … Ler maisTIQUINHO DE NADA

FAMÍLIA DE VITRINE

Os olhos do menino maltrapilho assediavam vitrines natalinas comsonhos inalcançáveis. A barriga roncava. A mãe o abandonara para viver com o traficante do morro. Com apenas seis anos, aquele fiozinho de gente tinha que se sustentar engraxando sapatos. Naquele dia não conseguira nenhum cliente. Engraxate era profissão quase extinta. Só lhe restava ir para debaixo … Ler maisFAMÍLIA DE VITRINE