FORÇA NA PERUCA

Depois de anos a fio dedicados à devastação capilar, o tempo regenerou-se e interrompeu o prolongamento da minha testa. Os fios sobreviventes, levo-os para aparos periódicos em barbearia no centro da cidade onde encontrei, sábado passado, o general numa das cadeiras, à espera da tesoura. – Só as pontas, soldado. Desobedeça-me e irá apodrecer no … Ler maisFORÇA NA PERUCA

O SUMIÇO DA IRMÃ

Preta e Morena, embora morassem em bairros distantes, se encontravam todos os meses no centro da cidade. Cumprimentavam-se e caminhavam até a agência bancária onde resgatavam a aposentadoria; depois, cumpriam o roteiro tradicional. Não foi diferente no mês da greve dos caminhoneiros, quando legumes, verduras e demais alimentos atingiram preços estratosféricos. O primeiro estabelecimento frequentado … Ler maisO SUMIÇO DA IRMÃ

CAFÉ AMARGO

Cursava o sexto semestre de Direito e trabalhava como secretária em escritório advocatício na Avenida Paulista. Nos intervalos vespertinos, atravessava a rua e saboreava croissant acompanhado do melhor macchiato com caramelo da capital. Apreciava a cafeteria devido à clientela sofisticada. Conhecera, há poucas semanas, as irmãs médica e empresária. O primeiro contato só aconteceu porque … Ler maisCAFÉ AMARGO

PECHINCHA NO BRECHÓ

A velha esgrouvinhada, trazia os dedos pressionando as palmas das mãos. Não, não se tratava de artrite. Sovinice mesmo. Viúva, era proprietária de inúmeros imóveis e contas bancárias milionárias no país e exterior, herdados com a morte do marido. Residia no Jardim América, na capital, em mansão que implorava reformas. Era tão sovina, mas tão … Ler maisPECHINCHA NO BRECHÓ

MEIAS-ENTRADAS

Barbeou-se demoradamente, contemplando-se todos os ângulos, ensaiando olhares e sorrisos. Escovou os dentes e aspirou o hálito. Desnudou-se e se demorou no banho. Depois, enxugou-se e derramou perfume importado em locais estratégicos. Alinhou fios dourados. Cofiou o bigode. Vestiu-se com o que tinha de melhor para proteger-se do inverno. Iria ao cinema com a namorada. … Ler maisMEIAS-ENTRADAS

FINAL DE CAMPEONATO

Televisor ligado. Sobre a mesinha de centro da sala, cerveja estupidamente gelada acompanhava porção de linguiça calabresa acebolada. Preparou tudo meia hora antes, depois do banho. Vestiu-se como se também fosse entrar em campo. Até chuteira calçou. Vestiu o “manto sagrado”: camisa número 10, velha, descorada, que jurava trazer sorte. Não funcionou na primeira partida. … Ler maisFINAL DE CAMPEONATO

CINCO CENTAVOS

– Não estou suportando mais olhar pra cara de sua mãe. Ela vive me comparando com seu antigo namorado: “Fernandinho tem duas BMW. Você, só um caco velho!”. “Fernandinho é homem fino. Você, não fecha a boca enquanto come”. “Fernandinho é o homem perfeito para minha filha!”. Fernandinho isso, Fernandinho aquilo. Não aguento mais! A … Ler maisCINCO CENTAVOS

UM AMOR DE SOGRA

O metalúrgico cumprira mais um expediente naquela madrugada.Chegara triturado, moído qual carne de segunda em plena sexta-feira, desmoronando-se no sofá da sala. A energia que lhe restara, usara para alforriar os dedos espremidos das botas desconfortantes e esparramar-se no leito. As pálpebras não suportaram o cansaço. – Tá pensando que minha filha é escrava pra … Ler maisUM AMOR DE SOGRA

UNIDOS PELA MORTE

Tímido ao extremo, depois de protelar por meses, finalmente resolveu confessar o amor que nutria pela moça da loja no shopping. Para isso, passara madrugadas elaborando a abordagem, a fim de que o momento fosse inesquecível. Decidira que compraria flores e anel de ouro para impressioná-la. Entretanto, há meses estava desempregado e suas economias, extintas. … Ler maisUNIDOS PELA MORTE

LIVROS, UM TESOURO INCALCULÁVEL

Não se intimidava com o número de páginas. Quantas mais, melhor. Devorava-os em qualquer local: filas, ônibus, durante as refeições, antes de dormir. Chegou a ler algumas vezes debaixo do chuveiro, sob guarda-chuva. Mas desistiu depois que um livro lhe escapuliu para executar nado livre. Às vezes, caminhando pelas calçadas, livro em punho, colide com … Ler maisLIVROS, UM TESOURO INCALCULÁVEL

UM NAMORADO PARA A MANICURE

Girar a chave para abrir a porta do estabelecimento produzia um som que a fazia suspirar. Só ela sabia do sacrifício que fizera ao economizar cada centavo para realizar o sonho que a tirou da espremida sala de sua minúscula casa. O salão, embora modesto, era bem arrumadinho e disputado pela alta sociedade. A frequência … Ler maisUM NAMORADO PARA A MANICURE

FALTOU O RECHEIO

Naquele 24 de junho de frio glacial fui convidado para uma festa junina na roça, região da Serra da Mantiqueira. Gosto das festas juninas com barraquinhas onde vendem arroz doce, bolo de milho, pé-de-moleque, quentão e tantas outras. Gosto daquelas que têm fogueira, pau de sebo, correio elegante e sanfoneiro tocando “Isto é lá com … Ler maisFALTOU O RECHEIO