Lembranças Literárias : As três borboletas

No seio de uma purpurina rosa,
regaço meiga de suave encanto,
três borboletas, dentre as mais formosas,
pousam, envoltas em dourado manto.

Manto de luz, que sobre as asas resta,
pólen dourado, cintilante, exul,
conversam todas, cada qual mais lesta:
a branca, a preta e a derradeira, azul.

Diz a terceira, cor de azul celeste:
– eu sou o céu, porque no céu nasci;
a imensidade, desta cor se veste,
sou um pedaço que de lá cai.

Diz a segunda, aquela negra e triste:
– Sou cemitério, porque lá nasci;
lá vivi sempre, onde ninguém existe,
e chorei sempre, mas depois, parti.

Lá no cipreste, quando o vento exala
as suas mágoas, perpassando as franças,
ouvi queixumes, ouvi tristes falas,
são virgens mortas balouçando as tranças.

A flor alada, de virgínia cor,
Começou trêmula, a falar assim:
– Lágrimas puras, que chorais na dor,
São lenitivos de um amor sem fim;

Nasci nuns olhos de pureza imensa,
sou triste símbolo de casto amor;
não há no mundo quem tristeza vença,
quem não padeça, quem não tenha dor.

Na dor nasci, de um coração de virgem,
que chora o amante que partiu pra guerra;
na despedida triste eu tive origem,
hoje vagueio, da campina à serra.

A rubra rosa, de sereno encanto,
nunca tivera verdadeiro ardor;
vivia quieta, satisfeita, enquanto
à brisa mansa declarava amor.

Leônidas de Castro – jornal local Folha do Norte (extinto), 24 de setembro de 1911

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