Proseando : CÃO QUE LATE NÃO MORDE

Por Maurício Cavalheiro

Morar em apartamento requer disciplina quase militar. O regramento aprovado em assembleia geral elenca proibições que visam preservar a política da boa vizinhança. Mas, embora o regimento interno estabeleça multa ao condômino que desrespeitar qualquer de seus itens, brotam, em quase todos os edifícios, aqueles que se consideram acima da lei.
Por exemplo: não há nada mais perturbador do que residir sob a moradora que não se desfaz do salto alto nem para dormir. Durante a madrugada é um tal de “toc, toc, toc” para ir ao banheiro, para beber água ou sabe se lá para quê. Outra situação de enlouquecer é a provocada pelo casal que resolve discutir relação sem moderar o tom de voz. Quando têm crianças, a situação piora. Há outras dezenas de situações, entre elas, a que aconteceu num edifício da Rua Augusta.
Recém-estabelecido, o morador do 404, homúnculo que quase precisava ficar na ponta dos pés para manusear a maçaneta, andava com o nariz empinado, talvez para compensar a estatura. Se alguém se atrevesse a direcionar olhares a ele, gritava: “O que foi? Nunca viu?”
Conseguia dormir apenas depois de ingerir coquetel de calmantes; paliativo ineficiente se houvesse um pio. Naquela noite, assim que cerrou as pálpebras, ouviu latidos de Maltês. Enfiou-se, em vão, debaixo de travesseiros. Como as estridências não cessavam, pulou da cama decidido a restabelecer o silêncio. Os latidos vinham do andar de cima.
Assim que deixou o elevador, esperou que o latido denunciasse o apartamento. Não demorou. Apartamento 503. Estufou o peito e apertou a campainha, insistentemente. Vizinhos abriram fresta minúscula entre porta e batente, para espiar. Quando a porta do 503 se abriu timidamente, os vizinhos fecharam as portas rapidamente.
– Em que posso ajudá-lo, meu filho?
A senhora franzina, voz adocicada, espremia os olhos para enxergá-lo.
– Mande esse cachorro calar a boca! Eu preciso dormir.
– Desculpe, filho. É o cãozinho do meu netinho. Ficarão conosco até o fim de semana. Tenha paciência, por favor.
– Paciência uma pinoia! Se esse cachorro não se calar, não respondo por mim.
A senhorinha tentou, inutilmente, amansá-lo.
– Chame o seu netinho. Traga também o cachorrinho que eu quero ter uma conversinha com eles.
Tentou empurrar a porta. Parecia emperrada.
– Cadê o seu netinho mimadinho? Vou fazer esse cachorrinho não latir nunca mais.
Naquele momento, a porta se escancarou e ele viu o homem de dois metros de altura, metro e meio de largura e mais alguns de profundidade, segurando o Maltês. Engoliu em seco, deu meia volta em direção ao elevador. A senhorinha, entre risinhos, perguntou:
– O senhor não queria falar com o meu netinho?

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