Proseando : CINCO CENTAVOS

Por Maurício Cavalheiro

– Não estou suportando mais olhar pra cara de sua mãe. Ela vive me comparando com seu antigo namorado: “Fernandinho tem duas BMW. Você, só um caco velho!”. “Fernandinho é homem fino. Você, não fecha a boca enquanto come”. “Fernandinho é o homem perfeito para minha filha!”. Fernandinho isso, Fernandinho aquilo. Não aguento mais!
A moça pediu que tivesse paciência, pois teria conversa séria com a mãe. Dias depois, foi visitar a namorada. A sogra apareceu sorridente, com bandeja de doces.
– Olhos de sogra. Fiz especialmente pra você.
A namorada ensaiou subtrair unidades, mas a mãe a repeliu com tapas na mão. Filha única, órfã de pai e mimada ao extremo, recolheu-se ao quarto devido à privação. A sogra aproveitou.
– Coma, genrinho. Coloquei um ingrediente muito especial: cicuta.
Ele não comeu. Disse que não gostava de doces. Noutro dia, a sogra, interrompendo sessão de beijos dos pombinhos, estendeu a mão com cinco moedas de um centavo e disse:
– Pra você!
Ele quase verbalizou um “Enfia no… nariz!”, mas se conteve.
– Guarde pra senhora. Podem comprometer suas finanças.
– Por favor, aceite-as com todo o meu carinho.
Explodiu: libertou os palavrões, jogou as moedas no chão, e foi embora. A namorada ficou enfurecida. “Está ficando louca, mamãe?”
No mês seguinte, no dia do aniversário da namorada, o rapaz a convidou para jantar. “Posso chamar mamãe para ir conosco?”.
Após enumerar todas as indelicadezas da sogra, a namorada se convenceude não levar a mãe.Naquela noite, no horário combinado, ele apareceu. A sogra estava à porta com cara de “me leve com vocês?”. A namorada fez última tentativa para convencê-lo. “Não, não e não!”
No restaurante, ela pediu os pratos mais caros, a bebida mais cara, a sobremesa mais cara. O rombo na caderneta de poupança valeria a pena. Satisfeitos, ele pediu a conta. O garçom rapidamente voltou com a máquina de cartão: “Débito ou crédito?”
– Nenhum dos dois. Não uso cartão. Pagarei em dinheiro.
Enfiou a mão no bolso, tirou da carteira todas as cédulas e as depositou sobre a mesa.
– Prontinho, meu amigo. Hoje não tem pra gorjeta. Sinto muito.
– Senhor, está faltando dinheiro. Estão faltando cinco centavos.
– Cinco centavos? Vai me cobrar míseros cinco centavos?
– Senhor, é a norma da casa: não reduzir nenhum centavo. Se o senhor não pagar, chamarei a polícia.
A namorada, na iminência de um ataque de histeria, gritou:
– Pague logo e vamos embora!
– Não posso – cochichou – Não tenho cinco centavos.
– E o que vamos fazer?
– Será que minha querida sogrinha ainda tem aqueles cinco centavos?

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