Proseando : CREME DE AMENDOIM PARA CUNHADO CHATO

Por Maurício Cavalheiro

O relógio empoeirado, pendurado na parede que implorava por demãos de tinta, resolveu amarrar o tempo. Os ponteiros preguiçosos insinuavam greve, para desespero do chefe da repartição. Não fosse a urgência dos relatórios, estaria em casa, concentrado no futebol.
O olhar de “não fale comigo, senão eu mordo”, apenas se deteriorou quando, finalmente, o relógio encerrou o expediente. Como de costume, rosnou um “até amanhã” e correu até o metrô.
Moema não era distante; porém, para chegar rapidamente, necessitava esquecer boas maneiras e aderir ao empurra-empurra. Foi assim que conseguiu embarcar na primeira tentativa. Espremido, é verdade. Mas não se importou com a condição pois, em breve, todo aquele estresse seria dissolvido pelas dúzias de cerveja.
Assim que o trem parou no destino, caminhou duas centenas de metros e adentrou no edifício. Décimo segundo andar. O ascensorista pressionou o botão e em poucos segundos ele já abria a porta do apartamento. Entrou e gritou: “Amor, cheguei! O Paçoca melhorou?”, e foi abrir a geladeira.
– Melhorou nada. Amanhã vou levar fezes dele para análise do veterinário.
– Isso mesmo. Hum… Estão faltando quatro cervejas. Você não bebe. Quem foi?
A empregada doméstica, temendo ser responsabilizada, se defendeu: “Bebo dessa água não, doutô.” A esposa apareceu e revelou apreensiva:
– Meu irmão veio passar uns dias conosco.
– Outra vez? Seu irmão é um folgado. Um vagabundo.
– Você sabe que ele não pode trabalhar. Foi até encostado pelo INSS.
– Encostado ele tá é aqui. Praga.
Não teve jeito: naquela noite, dividiu o sofá com o cunhado, torcedor do time adversário. Apesar da péssima companhia, foi dormir feliz, pois o seu time vencera a partida.
No outro dia, acordou cedo para o desjejum e encontrou o cunhado se lambuzando com o conteúdo de um pote.
– Hum. Isso é creme de amendoim? Tem um gostinho diferente. Delicioso. Pena que você chegou tarde. Acabou.
Lambia os beiços quando a irmã apareceu com o Paçoca nos braços, aflita, investigando os armários. Abria gavetas, coçava a cabeça.
– O que você está procurando, amor?
– As fezes do Paçoca. Deixei aqui em cima do armário ontem. Sumiu.
A empregada, que morava com eles, confessou:
– Patroa. Eu coloquei ontem na geladeira. Não é aquele potinho que está na mão do seu irmão?

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