Proseando : FINAL DE CAMPEONATO

Por Maurício Cavalheiro

Televisor ligado. Sobre a mesinha de centro da sala, cerveja estupidamente gelada acompanhava porção de linguiça calabresa acebolada. Preparou tudo meia hora antes, depois do banho. Vestiu-se como se também fosse entrar em campo. Até chuteira calçou. Vestiu o “manto sagrado”: camisa número 10, velha, descorada, que jurava trazer sorte. Não funcionou na primeira partida. A verdade era que não tinha dinheiro para comprar outra.
Dez minutos. Não mais do que dez minutos para o início da grande final do campeonato. O time precisava reverter o resultado da primeira partida. Nervos à flor da pele. Suava, tremia. Coração acelerado. Hipertenso, corria o risco de sofrer infarto ou derrame cerebral.
– Não quero um pio!
Precisamente, às 16 horas, os times entraram em campo. Perfilaram-se para o Hino Nacional. Ele se pôs em pé e se posicionou para desafinar no patriotismo. Os primeiros acordes encheram a sala. Ele estufou o peito, abriu a boca para o “Ouviram do Ipiranga…” quando:
Toc! Toc! Toc!
– Isso é hora de alguém bater à porta? Seja quem for, mande embora, mulher.
Era a cunhada da capital, cujo pior defeito era tagarelar a 130 decibéis. Trazia presentes. Após cumprimentar a irmã, instalou-se no sofá.
– Cunhadinho querido, quem está ganhando?
– O jogo ainda não começou!
– Posso ficar aqui e assistir com você?
– Se prometer não abrir a boca, pode.
Prometeu, mas não cumpriu. A cada lance pulava, gritava e, o pior: torcia, sem saber que era para o time adversário. No último lance da partida ela se excedeu:
– Chuta! Chuta! Gol! É goooooooooooooool! É Campeão! É campeão!
Ele se enfezou. Desligou o televisor e a mandou calar a boca.
– Que mau humor é esse, cunhadinho? Só por causa de um joguinho de futebol? O que você ganha com isso?
Ele parecia vulcão prestes a entrar em erupção. Ela deu-lhe as costas, retirou-se da sala e voltou, minutos depois, com o presente.
– Vamos fazer as pazes? Trouxe um agradinho pra você. Espero que seja o seu número.
Ele pegou o pacote sem agradecer, enquanto pensava: “O time amarelou, perdeu o campeonato e eu, apostas que não poderei honrar”. Transtornado, aproximou-se da janela do quinto andar, por onde atirou o pacote.
– Não preciso de nenhuma porcaria!
– Vai se arrepender, cunhadinho. Não devia ter feito isso.
– Não? Por que, não? O que havia de tão especial naquela caixa?
– A camisa do seu time. Encontrei os jogadores outro dia no aeroporto e pedi que a autografassem para você. Foram muito gentis.
A mulher e a cunhada precisaram segurá-lo para que não saltasse do quinto andar a fim de recuperar a camisa.

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