Proseando : FORÇA NA PERUCA

Por Maurício Cavalheiro

Depois de anos a fio dedicados à devastação capilar, o tempo regenerou-se e interrompeu o prolongamento da minha testa. Os fios sobreviventes, levo-os para aparos periódicos em barbearia no centro da cidade onde encontrei, sábado passado, o general numa das cadeiras, à espera da tesoura.
– Só as pontas, soldado. Desobedeça-me e irá apodrecer no xadrez!
O general, de setenta e muitos anos, não era e jamais fora general. O apelido originara-se de seu maior sonho: servir à Pátria. Quando a fatídica dispensa arrancou seus dois únicos parafusos da cabeça, passou a nominar-se pelas patentes do Exército, até atingir a mais alta graduação.
Estranhamente, naquele sábado, não havia espelhos na barbearia. Inquiri o motivo. Sem maiores explicações, disseram-me que assim que o general fosse embora, seriam recolocados.
Invariavelmente, toda vez que o general se ajeitava na cadeira, dormia. Era o momento em que a tesoura iniciava o corte de cabelo. Cabelo? Qual cabelo? O general, careca de norte a sul, de leste a oeste, usava peruca. Foi a família que orientou: “Para não enfurecê-lo, cortem apenas milímetros das pontas dos fios postiços”. Naquele dia, entretanto, em vez do corte, decidiram inovar.
Ao despertar, o general levantou-se, retirou alguns reais do bolso e, antes de pagar, exigiu:
– Quero um espelho.
– Infelizmente, general, todos os nossos espelhos foram quebrados pela mulher enciumada de um cliente. Providenciaremos as reposições.
– Sendo assim, pagarei somente depois de avaliar o trabalho.
E saiu.
Horas depois, reapareceu enfurecido, com revólver em punho.
– Estão pensando que sou palhaço? Quem foi o engraçadinho?
O proprietário da barbearia interveio:
– Calma, general. Abaixe essa arma, pelamor de Deus!
– Pelamor de Deus, digo eu! Quem foi o engraçadinho que colocou essa peruca verde e amarela na minha cabeça?
– General, é Copa do Mundo. Salve a seleção! Gol! Brasil!
– Detesto futebol! Se ninguém assumir a autoria, vou descarregar essa belezinha em vocês.
Nervosamente, o rapaz levantou a mão.
– Fui eu.
O coronel aproximou-se do réu confesso, colocou o cano do revólver na cabeça dele e disse:
– Perdeu o juízo, soldado? Corrija imediatamente o que fez!
– Corrigir? Como?
O general curvou-se e cochichou no ouvido do rapaz:
– Me trazendo outra peruca. Cor de rosa, por favor.

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