Proseando : MEIAS-ENTRADAS

Por Maurício Cavalheiro

Barbeou-se demoradamente, contemplando-se todos os ângulos, ensaiando olhares e sorrisos. Escovou os dentes e aspirou o hálito. Desnudou-se e se demorou no banho. Depois, enxugou-se e derramou perfume importado em locais estratégicos. Alinhou fios dourados. Cofiou o bigode. Vestiu-se com o que tinha de melhor para proteger-se do inverno.
Iria ao cinema com a namorada. Um encontro reconciliatório: por motivo fútil, permitiram que rusgas cuspissem ofensas recíprocas. Era mais uma oportunidade para que se redimisse do ciúme.
Antes de ir ao encontro, passou na floricultura e comprou flores.
Pouco antes do horário aprazado, estava à porta do edifício onde residia a namorada. Cumprimentou o porteiro e ascendeu ao décimo segundo andar. A porta estava aberta. Ela ainda se banhava. Teve que submeter-se ao sacrifício de trocar meia dúzia de palavras com a sogra. Velha insossa.
– Demorei?
Cavalheirescamente, ele sorriu e meneou a cabeça em negativa. Deu-lhe as flores, longo beijo, despediu-se da sogra e saíram. Assistiriam a filme romântico com atores hollywoodianos. No trajeto, ela o advertiu para controlar o ciúme, relembrando dois episódios.
Na primeira vez que foram assistir à sétima arte, ao adquirirem ingressos, o funcionário do cinema revelou-lhes:
– Hoje tem a promoção do beijo. Casal que se beija, paga meia-entrada. O homem deve ficar com os olhos fechados, enquanto é beijado. Se abrir os olhos, perde a promoção.
Ele achou estranho ter que fechar os olhos. Contudo, se era para reduzir despesa, valeria a pena. Fechou. Longos minutos depois, o funcionário o autorizou a abrir os olhos. “E o beijo? Ela ainda não me beijou”. O rapaz alegou que a fila estava crescendo, entregando-lhes meias-entradas. Ele não compreendeu, pois não havia fila alguma.
Noutra noite, no mesmo cinema, o mesmo funcionário, a mesma promoção. Desta vez, não cerrou as pálpebras completamente. Desvendou a farsa: o beijo acontecia entre sua namorada e o rapaz. Perdeu o controle. Se não o segurassem, agrediria o funcionário. Não assistiram ao filme. Exigiu que demitissem o rapaz. Perdeu a namorada, mas a demissão foi efetivada.
Naquela noite, decidiram por shopping mais sofisticado, em outra cidade. Na fila do cinema, trocavam beijos, carinhos e juras de amor eterno. Apenas perceberam que eram os próximos, quando foram interrompidos:
– Hoje tem a promoção do beijo!
Conhecia aquela voz.
– Você, safado? Agora está trabalhando aqui? Hoje ninguém me segura. Estou fervendo.
Jogou o paletó no chão, segurou o rapaz pelo colarinho, puxou-o sobre o guichê e, depois de olhar fixamente nos olhos dele,não resistiu: beijou-lhe a boca.

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