Mês da Mulher – Lígia Fonseca e uma geração de mulheres fortes

Ao lado da sua família, a artista plástica representa o verdadeiro significado da expressão “resiliência”

A entrevistada era Lígia Maria Ferreira da Fonseca, de 33 anos, – ex-atleta de ginástica olímpica, que ficou tetraplégica após um acidente quando treinava nas barras paralelas assimétricas –, mas bastaram um bate-papo daqui e outro dali para percebermos que a história de superação e persistência da Lígia é herança de uma família de mulheres fortes. De mulheres resilientes. De mulheres de fibra. (Claro, sem diminuir a trajetória dos homens desta família).
Quando uma pessoa passa por uma adversidade como um acidente, por exemplo, as mudanças ocorrem nela e em todo núcleo familiar. Nesta hora, a importância de se ter uma família unida é fundamental.
“Graças a Deus nós temos uma família maravilhosa! Crescemos em uma casa em que todos se ajudam de alguma forma”, conta Marta Fonseca, mãe de Lígia.
Marta relata que logo após o acidente, um dos médicos foi taxativo. “Vocês têm duas opções: ou ela mora aqui no hospital com todos os cuidados ou vocês a levam para casa e passem a cuidar dela. Neste caso, pode ser que vocês não tenham condições suficientes”, declarou o médico.
Embora o desafio fosse grande, Marta disse que nunca pensou na possibilidade de a Lígia ficar no hospital. “Porque seria muito cômodo para nós deixá-la lá. Ir visitar de vez em quando e ver que ela estava sendo bem cuidada e bem tratada. Mas a missão é minha, é nossa. Temos que aprender juntas. Diariamente”.
E como aprendem!

AMOR À ARTE:

Passados mais de 15 anos do acidente, Lígia teve vários recomeços e um deles foi se descobrir pintora de telas. Hoje, uma talentosa artista plástica, ela diz que começou como terapia, mas que foi se envolvendo nesta arte. “Eu comecei como terapia ocupacional para ocupar a mente e me distrair. Mas hoje já virou profissão”, diz Lígia.
Ela faz parte da APBP (Associação dos Pintores com Boca e Pés), uma organização internacional controlada por seus artistas-membros que reproduzem os trabalhos, principalmente, na forma de cartões e calendários.
Engana-se quem pensa que a limitação física a impede de viver, de trabalhar e de sorrir… Lígia, dentro de suas condições, sai para passear, vai a shows – como o ‘Rock’n Rio 2017’ –, vai a festas e a eventos, sobretudo, os que são feitos em prol dela.
“Em todos esses anos, sempre podemos contar com a solidariedade das pessoas. Não só os que compram os quadros dela, mas aqueles que compraram a primeira camiseta que fizemos para arrecadar fundos. Desde então, sempre há pessoas de bom coração que fazem rifas, festas e outros eventos em favor da Lígia. Eu sou muito grata a cada uma dessas pessoas”, afirma Marta.

“As pessoas resilientes conseguem amadurecer emocionalmente e, após ultrapassada a fase negativa, ficam cada vez mais fortes!”

“A resiliência é a capacidade humana de superar as adversidades, transformando os momentos difíceis em oportunidades para aprender, crescer e mudar.”

A TRAJETÓRIA:

É impossível falar sobre a Lígia Fonseca sem mencionar sua história no universo esportivo. Ela começou a praticar ginástica olímpica muito cedo, aos quatro anos de idade. Em dez anos de carreira, ela já havia conquistado mais de 160 medalhas. Disciplinada, Lígia não gostava de faltar aos treinos e cada vez se desenvolvia mais em sua caminhada esportiva.
Um dia, em dezembro de 2002, com seus recém-completados 18 anos, durante o treino para uma competição, Lígia caiu das paralelas e ficou tetraplégica. A atleta viu sua vida e da sua família mudar de uma hora para outra, contudo, pôde perceber o quanto é querida e como sua família firmou-se como grande alicerce no pós-acidente.
Após as internações e as cirurgias, veio a busca incessante por aparelhos e por equipamentos que pudessem trazer um pouco de facilidade e agilidade em sua rotina. Sua determinação a levou ao hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. Foi lá que eles desenvolveram um mouse especial (adaptado) que ela coloca na boca e é capaz de digitar sozinha, tendo mais autonomia e independência.
Atualmente Lígia trabalha de casa por meio da internet. “É a tecnologia a favor da sua recuperação”, comemora.

  • Determinada, ela sabe que cada dia é um recomeço
  • Lígia, junto com a mãe Marta e as tias Mara, Maria Luiza, Maura Lídia, Meire e Marly
  • Ao lado do jogador Kaká
  • No Rio de Janeiro