Proseando : MINHA FILHINHA FOI MORAR NO CÉU

Estava caminhando por uma alameda, ouvindo Strauss, quando da bela casa amadeirada a loira saiu gritando, em prantos, com um cachorrinho ao colo. Silenciei o compositor e me apressei.

— Moça, o que aconteceu?

Ela tentou, mas não conseguiu organizar palavras; apenas apontou para a casa de onde saíra.
— A senhora foi assaltada?

Ela moveu a cabeça em negativa.
— A casa está pegando fogo?

Depois de meia dúzia de possibilidades, ela se reorganizou e falou:
— Pior, moço.
— Então me diga, pelo amor de Deus: o que está acontecendo?
— Minha filhinha…Minha filhinha… morreu!!!

Naquele momento, as pernas dela bambearam. Tive que segurá-la nos braços. Levei-a para dentro da casa, pedi que se sentasse. Enfiei-me pelos cômodos até encontrar água potável. Enchi um copo e dei a ela. Minutos depois ela me contou:
— Minha filhinha… morreu!!! Estou desesperada. O irmãozinho dela ainda não sabe. O que será de mim? O que será de nós?
Respeitosamente, sentei-me ao lado dela e a aconcheguei em meu ombro.
— Cadê seu marido?
— Não tenho.

Busquei palavras que pudessem, de alguma forma, confortá. Mas foi ela quem abriu a boca.
— Minha Lalinha… minha filhinha… tão meiga… tão carinhosa… No início do mês passado acordou amuadinha. Não quis comer. Não quis beber. Levei-a ao doutor que, imediatamente, a internou… Pancreatite. Rins e fígado comprometidos. Depois de dez dias eu a tirei do hospital. Não havia evolução. Estava sofrendo demais. As feridas pelo corpo se multiplicaram. Ontem me indicaram um especialista: “O cara é fera!”. Agarrei-me àquele fio de esperança. Deixei-a na clínica dele. Ele me alertou que a cura dela dependia de um milagre. Pediu que eu viesse embora, que descansasse. Não dormi. Agora, às 7h40, ele me ligou comunicando o óbito. Me entupi de calmantes. Acho que está começando a fazer efeito. Não tenho condições de dirigir. Você pode ir comigo e me ajudar a preparar o funeral?

Ela me deu a chave do carro e indicou o caminho. Meia hora depois, estacionamos. Assim que abriu a porta, ela saiu correndo, gritando, e entrou na clínica. Entrei em seguida.

A filha dela, a Lalinha, tinha 9 anos. Era uma belíssima Lhasaapso que foi morar no céu.

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