Proseando : NÃO VOTE EM BRANCO

Por Maurício Cavalheiro

Barnabé era homem simples, de bom caráter, temente a Deus. Incapaz de fazer mal a uma formiga. Morava na roça com a mulher e seis filhos.
Juca era o dono da venda, o amigo de infância que fora estudar na capital. Formara-se na USP, mas, devido a saudade da terra natal, não se estabelecera na cidade grande.
Todos os dias Barnabé se dirigia à venda para adquirir mercadorias. Cada item era anotado na caderneta. No fim do mês, Juca fazia o cálculo e Barnabé pagava o que devia. Após a quitação, Juca o convidava:
– Vem experimentar essa cachacinha. É das boas.
Barnabé tirava o chapéu, encostava o queixo no peito e se sentava.
– Tá encolhido, por quê? Tem bicho aqui, não.
Barnabé oferecia sorriso tímido, sem coragem de tirar os olhos da mesa. Juca puxava assunto.
– Me conta: como está o seu Santos?
Futebol era assunto que transformava Barnabé. Depois de mais uns goles, destravou.
– Futebór tá uma desgracera, Juca. Bão memo era quano jogava Pelé, Cotinho e Pepe.
A conversa fluía, regada à cachacinha. Barnabé ficava “vermeio” e falava mais do que a língua. Juca aproveitava.
– Mudando de assunto: qual o seu maior sonho?
Barnabé coçou o queixo, pensou um pouco e desembuchou:
– Ah, Juca. Eu quiria podê votá nas eleição.
– Ué. Porque não vota?
– Num sei votá. Sô semianarfabeto.
Juca avaliou o grau de conhecimento do amigo e concluiu não haver obstáculo para que se tornasse eleitor. No outro dia foram ao Cartório Eleitoral.
– Pronto!Agora você já pode votar.
No dia da eleição, Juca orientou Barnabé:
– Fique nessa fila. Na sala de votação, mostre o título de eleitor e o documento com foto ao mesário. Você assinará um documento e irá para a cabine votar. Vote em quem você quiser. Mas não anule e nem vote em branco.
– Podexá, Juca. Isperei a vida intera pra votá e cê acha que vô anulá? De jeito manera.
– Isso mesmo. Vou esperar você na saída.
Depois de três quartos de hora de espera, Juca viu o amigo sair, detido por policiais.
– O que aconteceu, Barnabé?
– Juca, diz pros home, pelamor de Deus. Ocê num disse que era pra eu num votá em branco? O mardiçoento mesáro num dexô eu votá no Pelé. Meti um soco na cara dele. Em branco num voto. Num voto memo.

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