História : O comércio na Pinda antiga (reminiscências de Balthazar)

Por Altair Fernandes Carvalho

Nesta edição iremos com Balthazar de Godoy Moreira (1898/1969), conforme série de crônicas publicadas por ele em 1963 neste jornal, a um passeio pelo comércio da Pindamonhangaba antiga. O quadro que nos pinta o cronista traz as poéticas matizes que só escritor dotado de magnífica sensibilidade e privilegiada memória poderia produzir. Discorre-nos o articulista sobre os ambulantes. Ao invés do consumidor ir ao comércio, a ida do comerciante até o consumidor. Começa assim suas lembranças a respeito desse tema…
“Durante a semana a cidade espairecia tranquila, silente, deixando a vida fluir. Deixava-se ir, boiando no tempo, à deriva, sem um esforço para sair dos remansos. Nas horas de sol quente modorrava ‘oblivion’, podia chamá-la Monteiro Lobato, que nesse tempo, de São Paulo, com um bando de futurosos companheiros, pontificava no Minarete. Em recesso, a cidade porém não faltava ao seu destino de terra culta, criadora de talentos.”
Aqui a primeira interrupção para esclarecer ao leitor que, segundo o dicionário Michaelis, oblivion significa “cair no esquecimento”. Minarete, segundo o dicionário Aurélio, é uma “Pequena torre de mesquita de três ou quatro andares e balcões salientes, de onde se anuncia aos muçulmanos a hora das orações”. No caso deste artigo era como uma república de estudantes, entre eles Monteiro Lobato, haviam ‘batizado um chalé existente na capital paulista,no bairro Belenzinho, na rua 21 de Abril, em São Paulo. Também foi o nome dado a um jornal de propriedade do prefeito de Pindamonhangaba, no qual Monteiro Lobato e seus amigos escreviam. Esse jornal durou até 1907.
Retornando a Balthazar e ao passeio na pela cidade de Pindamonhangaba de outrora o articulista nos conta que: “Uma ou outra pessoa saia a rua, ou um ou outro trole, fazendeiros que iam para a roça ou dela retornavam, um ou outro cavaleiro. Lojas e armazéns quase desertos. Assim mesmo estavam fazendo negócios. O costume é que era outro: as mulheres não iam geralmente às lojas fazer compras. Mandavam buscar amostras ou os próprios artigos. Os caixeiros andavam para lá e para cá, cadernos de amostras nos braços às vezes com as próprias peças de fazenda ou pilhas de caixas de sapatos, as botinas de canos alto, em voga, ou chinelos… chinelos de cara de gato eram os mais comuns. Certas fazendas que então encantavam as mulheres desapareceram do mercado: chitas diversas, nanzuques, mirinós, pongês, tafetás, palhas de seda dacor que mais tarde chamariam areia, cetins, fustão, flanelas e baetas. Quando alguém estava com sarampo devia ser envolvido em baeta vermelha, tomando ou não, ‘horresco referens’, jasmim de cachorro. O linho também não custava tanto e era muito usado. E fitas e rendas.”
Segundo dicionário de latim, a expressão horresco referens significa “Tremo ao referir. Palavras de Enéias ao narrar o episódio da morte de Laocoonte.”E segue Balthazar:“Amostras iam para lá e para cá e as senhoras faziam suas compras. Tinham carradas de paciência, os negociantes. Conforme a hora apareciam os ambulantes. Demanhazinha quando a cerração empoava debranco a paisagem, eram os vendedores e bolos, os gostosos bolos fritos de Pinda que chegavam quentinhos, à hora do café. Um café de pilão forte e quente, com bolo frito! Pobres pindenses de hoje, não sei que pecado cometestes que fostes privado dessa delícia. Devem ser grandes e cabeludos pecados mortais… pois, por pouco, Deus vos não privaria dos bolos fritos daquelas manhãs preguiçosas de Pinda. Vós todos que fritastes e vendeste bolos fritos aos pindenses de outrora, estais nos céus, com certeza, com cadeiras cativas no paraíso. O paraíso é para estas cousas ou não existiria.
Vinham logo mais os leiteiros. O leite chegava da roça ou das chácaras suburbanas, em litros comuns, fechados com buchas de palha de milho ou sabugo, nos picuás, à costa dos animais, seis ou oito de cada lado. Custava um tostão o litro. Em tempo de escassez, mais pataca. Não me lembro se os padeiros usavam já as carrocinhas. Parece-me que traziam os pães em grandes cestos de vime.
Os verdureiros eram poucos. A gente então, não prezava muito as verduras. Ninguém descobrira ainda vitaminas nem a necessidade de comer frutas com cascas. Verdura não, lombo de porco, sim; lombo de porco, entrecostos, suã e carne assada, muita carne. Mas sempre apareciam um precário ambulante oferecendo couve, chicória, serralha, batata doce, cará, aipim e mangarito. Comia-se mangarito com melado.
Chegavam os trens de São Paulo, o expresso, depois o rápido. Durante um certo tempo correu também um trem chamado sul-expresso, que fazia o percurso Rio/São Paulo em nove horas. Uma temeridade. Passava por Pinda ali pelas 14 horas. Com tamanha velocidade, abalou os trilhos e, após repetidos desastres,teve que ser suprimido. Um dos desastres foi mesmo em Pinda, perto do Curtume; uma hecatombe. A passagem de Pinda a São Paulo custava, 1ª classe, onze mil réis. Muita cara.
Uma vaga de pessoas votava da estação, pois esperar o trem era o que afazer de muitos. Logos mais saiam os dois carteiros distribuindo a correspondência, sendo um deles, durante muitos anos, o Deoclecio. Deoclecio percorrendo três vezes a urbs, cada vinte e quatro horas, sabia tudo de todos. Ainda bem que era discreto e sério. Um postalista emérito.
Sol a pino, lambendo o frontão da matriz a cidade modorrenta começava a alongar sombras para o meio das ruas. No Largo da Cascata,ainda sem jardim e no Largo do Mercado, rechinavam as cigarras zangarreios longos e narcotizantes…”

  • “Uma ou outra pessoa saia a rua, ou um ou outro trole, fazendeiros que iam para a roça ou dela retornavam, um ou outro cavaleiro...” (Na foto, rua Marechal Deodoro no início do século XX)
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