Proseando : O PERIGO DAS ROLHAS

O publicitário passou a madrugada ensaiando. Não podia cometer erros. Era o primeiro desafio desde que deixara a agência Spelunka. Embora fosse concorrer com três das maiores agências de publicidade do país, estava confiante. A avaliação seria à tarde, no 18º andar de um luxuoso edifício na Avenida Paulista.
Foi de táxi. Pagou ao motorista, entrou no edifício e caminhou até o elevador. Não havia ascensorista. Entrou com o velho sisudo e a jovem belíssima. O elevador começou a subir após a escolha do andar; mas, segundos depois, parou. Não subia, nem descia. O publicitário apertou o botão de telefone no painel. Não funcionou. Tentou o celular. Sem área. Sugeriu que fizessem o mesmo. Também, sem área. Pressionou o botão de alarme. Nada. Apertou, em vão, todos os demais botões.
O velho, claustrofóbico, começou a passar mal. Suava, tremia e, pior, disparava flatulências. Em pouco tempo o cubículofoi dominado pelo cheiro ruim. A mulher tentava acalmá-lo com palavras brandas, e atribuía a descompostura estomacal à feijoada. O publicitário, apertando as narinas, esbravejou:
– Coloque uma rolha no fiofó deste velho porco!
A emissão de gases só cessou quando o elevador voltou a funcionar. No 18º andar, o velho saiu amparado pela jovem. O publicitário, após levar a lapela ao nariz para investigar possível contaminação, entonteceu. Somente após respirar fundo, se refez. Em seguida, caminhou a passos largos na direçãooposta, onde ficava a sala da reunião.
Foi o último a discursar. Para quebrar a tensão, começou relatando o episódio no elevador, fazendo trejeitos e exagerando nas pitadas de ironia. Arrancou gargalhadas da plateia. Depois, explanou o projeto de maneira magistral, recebendo aplausos, inclusive, dos concorrentes. Por unanimidade, foi o escolhido. Um dos avaliadores se aproximou:
– Peço que aguarde um instante. Houve um contratempo, mas o presidente da empresa já está a caminho. Pelo celular, expliquei a ele o seu projeto. Ele adorou. O senhor foi muito criativo. Meus parabéns!
O publicitário agradeceu, afrouxou a gravata, aproveitou para tomar café e folhear uma revista. Estava tão entretido com a matéria que não percebeu o presidente adentrar ao recinto e se estabelecer na sala anexa. Vieram chamá-lo:
– Por favor, me acompanhe.
Após realinhar a gravata, dirigiu-se à sala indicada. Ao abrir a porta, teve uma surpresa: o presidente era o velho do elevador, e a jovem, a secretária. Apressou um “me desculpe”.
– De quê, rapaz? Gostei muito do seu projeto.Mas preciso pensar mais um pouco. Enquanto isso, quero dizer que aceitei o seu conselho.
– Conselho? Qual conselho?
O velho retirou objetos de cortiça de um dos bolsos e explicou:
– Sobre rolhas. Obtive algumas para tapar… tapar a sua boca.

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