Proseando : O PUXA-SACO

Por Maurício Cavalheiro

Funcionário de pouca eficiência, garantia-se no emprego aprimorando-se no puxa-saquismo que causava náuseas nos colegas.
Bastava um espirro para se levantar, retirar o tecido do bolso e antecipar-se aos lenços de papel. Em gesto adocicado, oferecia a seda azul bordada com o nome do chefe em letras douradas.
– Deus te crie e te dê saúde, chefinho! Quer que eu feche as janelas?
Certa vez, o chefe apareceu com os cadarços desamarrados. O puxa-saco não titubeou: ajoelhou-se, caprichou no laço e disse: “Prontinho, meu rei!”. E, a partir daquele dia, passou também a inspecionar cadarços e a lustrar sapatos.
Os colegas desejavam ardentemente que algum fato pudesse romper aquele devotamento doentio. Demorou, mas aconteceu quando o chefe decidiu aceitar o convite:
– Meu rei, tu precisas experimentar a culinária da minha avó. Que tal nesse fim de semana prolongado? Tua patroa vai te agradecer pelo resto da vida.
A avó morava no triângulo mineiro, em casa rústica, mas aconchegante. Recebeu-os com as mãos à boca, talvez para esconder o sorriso de felicidade. Depois, sem dizer palavra, os conduziu à cozinha e fê-los se sentar à mesa de maçaranduba, onde havia arroz com costelinha, leitãozinho à pururuca, tutu de feijão, torresmo e vaca atolada.
Enquanto o neto dispunha pratos e talheres, a avó abastecia o fogão de lenha com gravetos. O frango com quiabo e angu estava quase pronto.
– Que cheirinho delicioso! – Salivou o chefe.
– Seu neto diz que a sua comida é a melhor das redondezas – inteirou a esposa.
A senhorinha nada dizia. Entre uma espiada e outra no frango, vasculhava a cristaleira, abria armários, procurava algo.
– Venha comer com a gente, vó!
Educadamente, ela se sentou, mas não beliscou nada.
Depois do segundo prato, o chefe, que enfiava mais uma vez a concha no caldeirão de vaca atolada, chantageou:
– Se a senhora me contar qual o segredo do tempero dessa vaca atolada, darei um aumento salarial ao seu neto.
Assim que começou a reabastecer o prato, a velhinha escancarou a boca desdentada, apontou para a concha e disse:
– Minha dentadura! Você achou a minha dentadura!

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