Proseando : O SUMIÇO DA IRMÃ

Por Maurício Cavalheiro

Preta e Morena, embora morassem em bairros distantes, se encontravam todos os meses no centro da cidade. Cumprimentavam-se e caminhavam até a agência bancária onde resgatavam a aposentadoria; depois, cumpriam o roteiro tradicional. Não foi diferente no mês da greve dos caminhoneiros, quando legumes, verduras e demais alimentos atingiram preços estratosféricos.
O primeiro estabelecimento frequentado pelas irmãs era o restaurante. Havia anos que a mesa mais próxima à entrada era reservada a elas. Naquele dia, após saborear o último naco de churrasco e ingerir goles de suco de laranja, Morena apontou na direção da rua.
– Veja, Preta! Que chuchuzinho lindo!!!
A irmã, ao olhar na direção indicada, observou o rapagão malhado, peito nu, encostando a bicicleta na calçada.
– O que deu em você? Tem álcool nesse suco de laranja?
O princípio de rusga foi desfeito por sonora gargalhada de Morena.
– Que coisa feia, minha irmã. Fazendo mau juízo de mim. Estou apontando para a calçada oposta. Observe os chuchus naquele carrinho.
Preta olhou, constatou o menino apregoando o legume, e se arrependeu.
– Me desculpe.
Em seguida, sussurrou:
– Olhando bem, Morena, o moço é lindo demais, não acha?
Ambas riram.
Após a refeição, caminharam até a loja de armarinhos. Preta compraria lãs, com as quais faria cachecóis que seriam doados a crianças carentes. Morena escolheria toalhinhas para os móveis de casa. Combinaram: “Quem sair antes, espera pela outra na entrada da loja.”
Morena terminou a compra num piscar de olhos e se dirigiu à entrada. Como os minutos pressurosos não faziam Preta reaparecer, impacientou-se. Adentrou, outra vez, à loja e a procurou em cada canto; mas não a encontrou. Decidiu perguntar ao vendedor.
– Você viu minha irmã? Ela veio comprar lãs.
– Aquela que entrou com a senhora não comprou nada. Eu a vi sair enquanto a senhora escolhia toalhinhas.
Ela agradeceu e, em seguida, ranzinzando pelas ruas, dirigiu-se ao ponto de táxi.
– Me leve pra casa!
O tenebroso humor de Morena arrancou-lhe as palavras que, costumeiramente, trocava com o taxista. Assim que o veículo se pôs em movimento, arregalou os olhos quando olhou para um canto da praça.
– Não acredito!
– Não acredita em quê, dona?
Preta estava conversando com o rapagão malhado, peito nu. Misturando indignação e êxtase, Morena suspirou: “Que pedaço de mau caminho!”. E exigiu:
– Pare o táxi!

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