Proseando : PECHINCHA NO BRECHÓ

Por Maurício Cavalheiro

A velha esgrouvinhada, trazia os dedos pressionando as palmas das mãos. Não, não se tratava de artrite. Sovinice mesmo.
Viúva, era proprietária de inúmeros imóveis e contas bancárias milionárias no país e exterior, herdados com a morte do marido. Residia no Jardim América, na capital, em mansão que implorava reformas.
Era tão sovina, mas tão sovina, que gravara o som do chuveiro para não gastar água durante o banho. O sabonete era o mesmo do dia em que o general falecera, havia cinco anos. Somente se desregrava para manter os doze cães que protegiam a mansão. Alimentava-os com carnes de primeira qualidade, enquanto fazia refeições com variações de ovo.
Vestia-se, modestamente, com trajes puídos, remendados, pois já não possuíaqualquer vestimenta sem deteriorações. Os chinelos, cada um de uma cor, estavam costurados com barbante. Caminhava amparando-se num guarda-chuva, cujas varetas expostas denunciavam-no imprestável. Quem a visse não diria que era abastada senhora.
Tornara-se famosa no bairro e adjacências por frequentar brechós. Chamavam-na de “velha pechincheira”. Entrava nesses estabelecimentos segurando sacolinha, onde guardava moedas. Experimentava peças, olhava-se no espelho e inquiria:
– Quanto custa esse xale?
– Dez reais, senhora.
Num gesto ríspido, desvencilhava-se do produto e rosnava:
– Tudo isso!!! Por esse preço compro dois novos.
A cena se repetia a cada tentativa de aquisição. Fuçava em tudo. Perguntava o preço disso, o preço daquilo. Raramente comprava algo.
– Mocinha, por favor.
A moça, com sorriso indisfarçadamente enfadonho, aproximou-se dela.
– Pois não, senhora. Em que posso ajudá-la?
– Gostei muito dessas meias. Tem apenas um remendinho. Nem dá pra ver.
– Sim, sim. Seminovas.
– Quanto custa o par?
– Para a senhora, somente dois reais.
A velha encarou a moça e gritou:
– Dois reais? Você está louca? Eu adorei essas meias. Mas não vou pagar essa exorbitância.
Ia saindo da loja quando se voltoupara a vendedora e perguntou:
– Pensei melhor. Não vou levar o par. Vou levar uma meia só. Tá aqui o seu um real.

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