História : Pinda antiga: reminiscências de uma escritora romancista

Por Altair Fernandes Carvalho

A edição desta quINta-feira traz reminiscências da Pinda Antiga segundo uma crônica da romancista Hilda Cesar Marcondes da Silva (1910/1992), relatando um passeio feito ao município no início do anos  sessentas (artigo publicado na edição de 9/7/1963 deste jornal).

Depois de ter passado pelo Largo de São Benedito, Hilda deu continuidade ao passeio pelas ruas da Pindamonhangaba do ano de 1963. Com o carro prosseguindo em direção ao centro da cidade, seus comentários saudosistas se voltaram para a tradicional e histórica escola Alfredo Pujol. Diante do colégio secular lhe vêm à tona recordações de outros tempos vividos naquele templário de ensino e de seus professores. Entre os mestres e mestras relembrados, estão alguns que tiveram seus nomes perpetuados como patronos de estabelecimentos de ensino de Pindamonhangaba. E ela conta…
“O Grupo Escolar ‘Dr. Alfredo Pujol’ nos atrai o olhar. O pátio plantado de árvores frondosas, o recreio, os colegas… quem não estudou naquela casa, soletrando as primeiras letras, escrevendo as primeiras composições?… Professores Eurípedes Braga, Pinto Pestana, Otacílio Salgado, Pedro Silva, Carlos Cesar, Josefina Bulcão, Olívia Nazianzeno, Alzira Franco, Mariquinhas e Eunice Romeiro, a inteligência feminina mais vibrante de nossa terra… e o cortejo da saudade segue a caravana dos desaparecidos, acenando o lenço tarjado de negro, para os que ficaram!…”
A hoje Escola Estadual Dr. Alfredo Pujol foi o primeiro Grupo Escolar de Pindamonhangaba. O prédio onde se encontra estabelecida desde 6 de dezembro de 1902 (festa de inauguração), teve como responsável em sua construção o engenheiro Francisco Viotti, como construtor o engenheiro Santiago Stomini. A obra, durante a edificação, foi supervisionada tecnicamente pelo então engenheiro militar, Euclides da Cunha, escritor modernista autor de “Os Sertões”.
Feita a nossa oportuna observação, segue a escritora em seu passeio de recordações…
“O Jardim da Cascata, despido da vestimenta antiga. Atualizado. Já não é o mesmo de então, acolhedor e amigo. É frio, pedante e calculista como sua forma geométrica. Desapareceram as inúmeras voltinhas entre os canteiros floridos, propiciando o ‘flirt’ gostoso!. Mocinhos ingênuas, cheias de dengues, namorando espertos e sabidos estudantes da Escola de Farmácia…”
Ao se referir ao Jardim da Cascata da praça Monsenhor Marcondes, nota-se a discordância da cronista Hilda Marcondes quanto ao aspecto apresentado por aquele logradouro público no ano de 1963, com relação à praça de seus tempos de jovenzinha. Conforme nossas pesquisas sobre o histórico local, foi durante a administração municipal (1952 a 1955) do Dr. Caio Gomes Figueiredo que teria ocorrido a mudança questionada pela autora.
No governo do Dr. Caio se verificou uma das mais significativas remodelações artísticas da praça. Na época, os trabalhos que resultaram num novo visual à velha praça, couberam aos professores artistas, José Wadie Milad e João San Martin. As obras executadas foram desde a reposição de canteiros, gramados e árvores até a construção de uma fonte luminosa e substituição do antigo coreto por um de concreto, que é aquele que lá se encontra.
A próxima parada do “city tour” de dona Hilda foi o Éden Cinema…
“O Éden Cinema, velho dorminhoco, sonhando com o passado. Sono profundo. Não Pensa nas picaretas do progresso que, qualquer dia, o deitarão ao chão (e deitaram mesmo!). Nem as fanfarras barulhentas do Instituto de Educação conseguem despertá-lo. Sonha com Pearl White, Mutt e Jeff, Carlitos… Resmunga contra assuadas e assovios da molecada da geral. Soluça de saudades com as músicas do Deodato Pestana, João Maria Pires, Henrique San Martin, Mariquinhas Monteiro, Pedrinho Correard e Benedito do Rodrigo, na bateria.”
Sobre o Éden, em seu livro Pindamonhangaba Através de Dois e Meio Séculos (1922), Athayde Marcondes conta que era um grande pavilhão situado ao lado da praça Monsenhor Marcondes, inaugurado em 30 de dezembro de 1909. Tinha como proprietário Antonio Alves Moutinho, e fora construído no terreno onde antes existira o teatro de Pindamonhangaba.
Vários autores locais escreveram artigos recordando o auge do Éden, que mais que um cinema foi uma casa de espetáculos, serviu de teatro, de local para apresentação de trupes e de bailes e folguedos carnavalescos com batalhas de confete e serpentina.
Nesse passeio pela Pinda de 1963, Hilda Marcondes, ao mencionar o Éden como “velho dorminhoco sonhando com o passado”, não deve ter se referido à casa exibidora de fitas cinematográficas, mas ao prédio. O inesquecível cinema teria deixado de funcionar no início dos anos quarentas. Nos anos sessentas, já fazia pelo menos duas décadas que a cidade contava, bem próximo de onde fora o famoso cine Éden (hoje prédio de uma agência bancária federal), com o seu sucessor, o cine Brasil (hoje prédio de loja de discos), também na avenida Dr. Jorge Tibiriçá.
A base desta afirmação vem de crônica de Moacyr de Almeida (1920-2006), em seu livro “Cada Caso um Causo” (Stiliano, Lorena-SP, 1999), que, referindo-se ao cine Brasil, conta que este teria sido inaugurado em 1942.

  • Os filmes que iam passar no Cine Éden eram anunciados em um cartaz, na calçada da praça Monsenhor Marcondes, em painel pintado pelo letrista conhecido por “Meia Lua” (desenho em bico de pena de J. Renato San Martin, em Pelas Ruas de Pindamonhangaba – Prefeitura, 1995)
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