História : Pindamonhangaba e a campanha presidencial de 1910

Por Altair Fernandes Carvalho

Um dos inúmeros fatos relacionados à participação de Pindamonhangaba na história da pátria ocorreu há exatamente 108 anos, quando cidadãos locais também se manifestaram contrários à continuidade do governo militar, aderindo à Campanha Civilista de Rui Barbosa.
Considerada a primeira campanha presidencial que contou com a participação de segmentos amplos da sociedade brasileira, teve início em 1909, tendo o próprio Rui Barbosa como candidato da oposição ao governo militar, que tinha com candidato o marechal Hermes da Fonseca.
A histórica campanha é comentada no informativo de conteúdo jurídico-político-econômico do Portal Migalhas (www.migalhas.com.br), como um movimento que, “além de representar a luta pela consolidação da ordem civil no Brasil, mostrou o desejo de uma participação política mais efetiva da sociedade naquele contexto de domínio político de tradicionais oligarquias. “Prosseguindo, o informativo Migalhas registra uma avaliação do próprio Rui Barbosa, na qual ele descreve o movimento como “uma comoção vulcânica do povo em São Paulo e no Rio de Janeiro, a propagação da lava por todo o solo de Minas, o estado sísmico da opinião na Bahia, a trepidação geral do Sul.”
O movimento é ainda descrito como um clamor “em defesa da liberdade e do direito, contra um militarismo renascente que caminhava no sentido de dissimular o arbítrio sob a forma republicana. A hegemonia do poder militar não podia deixar de perturbar as consciências de homens e mulheres que, educados a partir de valores liberais, desejavam que a ordem social estivesse baseada na norma jurídica e no respeito às instituições republicanas.”

Pindamonhangaba
saúda Rui Barbosa
Foi o Dr. João Romeiro, político, jurisconsulto, poeta, escritor e jornalista fundador do Tribuna do Norte, quem – comissionado pelo Partido Republicano Civilista – saudou Rui Barbosa em nome de Pindamonhangaba. Fato ocorrido no dia 15 de dezembro de 1909, na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, quando Rui, na época senador, passou pela cidade propagandeando sua candidatura à presidência da República. Passagem descrita por Athayde Marcondes em Pindamonhangaba Através de Dois e Meio Séculos (Tipografia Paulista, São Paulo-SP, 1922).
Athayde conta que “centenas de senhoras e senhoritas, pessoas de todas as classes sociais vibraram de entusiasmo, saudando o grande estadista brasileiro”, na chegada do trem a Pindamonhangaba.
Entre o povo que fora à estação prestigiar a passagem de Rui pela cidade havia representantes da Câmara Municipal, do Clube Literário, da Sociedade Treze de Maio, da Sociedadade Margherita di Savóia, da Sociedade Paz e Amor; diretores, professores e alunos do Grupo Escolar Alfredo Pujol e de escolas isoladas.

O discurso de
João Romeiro
Conforme Athayde, este foi o discurso (na íntegra, mas na ortografia atual) que o pindamonhangabense Dr. João Romeiro teria feito em saudação a Rui Barbosa:
Eminente senador Rui Barbosa…
Aqui nesse recanto do nosso vasto país também têm chegados os echos dos aplausos que tendes recebido, em vossa brilhantíssima carreira política. Nunca poderão ser esquecidas as grandes batalhas que tendes pelejado com o maior esforço para salvar a liberdade do povo, ameaçada de ser aniquilada por falsos patriotas. E até hoje nos lembramos daqueles tempos de tristes recordação, em vós vistes obrigado a deixar a Pátria, para do estrangeiro nos enviar a vossa palavra animadora, fortificando a fé no futuro a República que não devia perecer.
Conhecemos alguns desses muitos serviços e, referindo-nos aos mesmos pedimos que nos desculpeis de não sabermos externar a gratidão de que por eles vos somos devedores. Bastava o que fizestes por nossa pátria, no memorável congresso de Haia, onde, com vossa sabedoria e eloquência, conseguistes colocar o Brasil ao lado das nações mais civilizadas, para merecerdes do povo a consagração de filho mais digno e mais merecedor deste vasto e imenso país.
E foi por isso que aplaudimos de todo o coração, e com maior entusiasmo, a resolução da patriótica convenção de agosto, designando-vos candidato a presidência da República e recomendando o vosso glorioso nome para o sufrágios dos eleitores no pleito que se vai ferir no dia 1º de março p. futuro.
Os paulistas ainda têm mais um motivo para vos serem gratos. Quando em 1886 sofremos o profundo golpe de perdermos o mais distinto filho que nossa terra tem produzido e que tanto nos orgulhamos; quando vimos atirado ao nada o grande vulto que se chamava José Bonifácio, lembramo-nos muito bem que, para nos ajudar a chorá-lo aqui estivestes mostrando desta maneira que sabeis prezar devidamente as glórias de São Paulo.
Hoje, pois, saudando-vos e prestando-vos modestíssimas homenagens, sabemos que estamos longe de vos pagar o muito que vos devemos, mas ficaremos contentes se pudermos vos convencer de que somos sinceramente agradecidos pelos inegualáveis serviços prestados a nossa pátria e vos desejamos os maiores triunfos no caminho político que ides perlustrar com coragem e patriotismo.
Viva Rui Barbosa!

A resposta de
Rui Barbosa
Athayde Marcondes, que estaria presente ao acontecimento para registrá-lo na qualidade de bom repórter que sempre fora, certamente valeu-se de seus conhecimentos sobre a taquigrafia (instituída oficialmente no Brasil em 3 de maio de 1823), para reproduzir a resposta de Rui, que de uma das janelas do vagão, assim teria se pronunciado:
Povo de
Pindamonhangaba…
O eloquente orador que me acaba de falar em vosso nome, querendo dar ao seu discurso o tom de majestade que a nossa causa reclama, invocou a imagem do morto imortal, que irradiou o esplendor de seu talento no meio das chamas do patriotismo: José Bonifácio!
Ouvindo-vos falar em José Bonifácio, a minha imaginação invocou a maior vida política dos tempos que recordastes, em que o batalhador deixava no horizonte e nossa política o sulco de suas asas de condor iluminadas pelas melhores tradições de liberalismo.
Só isso faltava para dar ao triunfo o cunho sagrado de que é digno. Que não seria, senhores, se ainda tivéssemos em São Paulo a voz de José Bonifácio à frente desta grande cruzada.
Mas a eloquência de José Bonifácio, a inteligência de José Bonifácio, não se extinguiram em São Paulo – vivem nas gerações que lhe sobreviveram, vivem no coração do Estado, que é o quartel-general da inteligência brasileira. O espírito de José Bonifácio não morreu: ele personifica a centelha elétrica do pensamento paulista saneando a corrupção moral na nossa atmosfera política. Nada mais me resta se não agradecer ao orador o beijar as mãos da gentil senhorita declarando que levo o povo de Pindamonhangaba no fundo do coração.
O “não” ao marechal Hermes
Dois meses após aquela calorosa acolhida ao candidato civilista o povo pindamonhangabense voltou a se reunir com igual entusiasmo e determinação. Desta vez, não para aplaudir, mas para protestar contra a candidatura do marechal Hermes. Realizado na praça da República (atual praça Padre João de Faria Fialho), o protesto foi enriquecido com os discursos de Fontes Júnior, Dr. Francisco Romeiro Sobrinho e Athayde Marcondes.
Concluídos os discursos, o povo acompanhou os oradores até a casa do prefeito, Dr. Claro César, dispersando-se em seguida.

Em Pinda deu Rui
As eleições foram realizadas no dia 1º de março de 1910 e – de acordo com Athayde – em Pindamonhangaba apontaram a vitória dos civilistas. Rui Barbosa, que fazia dupla com Albuquerque Lins (era o governador de São Paulo) para vice, obtivera 545; Hermes da Fonseca, que tinha Wenceslau Brás como vice, 363. Uma diferença de votos que revela que a preferência por Rui Barbosa não era tão significativa entre os eleitores pindamonhangabenses.
Com os resultados, os civilistas locais, desta vez para comemorar, movimentaram novamente às ruas da cidade. Uma cidade que, assim como outras da região, sofria o impacto da queda na economia devido ao declínio da cultura cafeeira, mas “morta”, não era não.
Ao som de hinos tocados pela Corporação Musical Euterpe, a vitória dos civilistas nas urnas pindamonhangabenses foi festejada em vão, os hermistas haviam levado a melhor.

Mas no Brasil
deu Hermes
Naquela eleição, na qual o país se dividira, com Bahia, São Paulo, Pernambuco, o estado do Rio de Janeiro e parte de Minas Gerais, apoiando o candidato Rui Barbosa, e os demais estados apoiando a candidatura de Hermes da Fonseca, a vitória, com expressiva margem de votos, ficara com o sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca. Deu Hermes com 403.867 votos contra 222.822 votos dados a Rui Barbosa.
Fica registrada, no entanto, a participação entusiástica, eufórica e patriótica dos pindamonhangabenses na Campanha Civilista de 1909/1910, movimento que mobilizou os diversos segmentos sociais num protesto favorável à consolidação da ordem civil no Brasil.

  • Hermes da Fonseca (1855-1923)
  • Rui Barbosa (1849-1923)
  • Rui e Albuquerque Lins na Campanha Civilista
  • Da janela do trem, Rui respondeu ao discurso feito por João Romeiro, em nome do Partido Civilista local
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