História : Pindamonhangaba e a guerra ao ratos

Por Altair Fernandes Carvalho

O início do século XX no Brasil marca um interesse maior por parte das autoridades governamentais quanto às questões da saúde pública, dando atenção ao controle das enfermidades, tais como a febre amarela, a varíola, a peste bubônica e outras. Por conta dessa efetiva prioridade, surgiram as medidas de higiene, vacinação, notificação de casos, isolamentos de doentes e eliminação de vetores
Da Pindamonhangaba do início do século XX, revivemos uma das ações da Intendência Municipal (Prefeitura) revelando preocupação com as condições sanitárias e a saúde pública, ambas publicadas em edições de um dos jornais que circulava no município na época, o Folha do Norte.
Uma delas saiu na edição de 16 de outubro de 1904 do mencionado informativo. Foi um curioso comunicado endereçado à população e se referia à coleta de ratos mortos. A outra saiu na edição de 5 de fevereiro de 1905 e o assunto dizia respeito à apreensão de animais que vagavam livremente pelas ruas e praças da cidade.
Ratos a 200 réis cada
O comunicado sobre ratos mortos era assinado pelo chefe da Comissão Sanitária, dr. Francisco Luiz Viana. Preocupado com o aparecimento de ratos mortos em diversos pontos do centro da cidade, nos quais, pelo exame bacteriológico, revelava-se o bacilo da peste bubônica, também chamada de peste negra, infecção que apresentava diversos casos em Pindamonhangaba, o Posto Sanitário oferecia dinheiro a quem lhe trouxesse os bichinhos mortos. Seriam pagos 200 réis por rato ou camundongo, desde que apanhados na área urbana do município, não se importando se fora ou dentro de casa.
Alertava, entretanto, o chefe da Comissão Sanitária, para que os catadores de ratos mortos tivessem, antes de apanhá-los, o cuidado de colocar sobre eles água quente ou uma solução bem forte de creolina. A medida é para matar pulgas que porventura pudessem existir nos pelos dos roedores. Recomendava também muito cuidado com as suas mordidelas para não ser contaminado pela peste.
Os ratos mortos coletados seriam incinerados no desinfetório instalado nos fundos do prédio do Posto Sanitário, que na época funcionava na rua Prudente de Morais.
Ao final do comunicado, o médico deixava claro que incorreria na multa de cem mil réis, além de outras penas que seriam estabelecidas, com máximo rigor, qualquer pessoa que tentasse enganar o Posto Sanitário levando para lá ratos (por menor número que fossem) procedentes de outros locais senão o centro urbano de Pindamonhangaba.

Ratos: grave problema para a saúde pública

Quando Rodrigues Alves (1848-1919) assumiu a Presidência da República em 1902, sua meta era o saneamento da capital federal, na época o Rio de Janeiro. Naquele momento, o Brasil tinha como projeto político a sua modernização segundo os padrões europeus. As epidemias que atingiam o Rio de Janeiro, como a febre amarela, a varíola e a peste, eram vistas como indícios de atraso.
Para mudar a situação, o presidente indicou para o prefeito do Distrito Federal o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836-1913), que comandou uma ampla reforma na cidade. O sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) foi nomeado para a direção da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), órgão federal responsável pelo combate às grandes epidemias, assumindo o cargo em março de 1903 com total responsabilidade sobre o combate às doenças epidêmicas.
Em 1900, o Rio tinha uma população de 690 mil habitantes; em 1903, o pior ano de uma epidemia de peste bubônica, 360 morreram. Até 1907, foram duas mil mortes. Como era difícil estabelecer o diagnóstico naquele tempo e muitas famílias escondiam seus doentes, talvez este número tenha sido até maior.
Complementando as medidas que já vinham sendo adotadas como as desinfecções e os isolamentos, Oswaldo Cruz combateu de maneira enérgica os vetores: os organismos que hospedam os vírus e as bactérias que causam as doenças.
“Ratoeiros”
A proposta de convencer a população a caçar ratos para erradicar a peste bubônica foi usada em outros países além do Brasil. Nas Filipinas, os americanos adotaram a estrategia, em fins do século XIX, que acabou servindo de inspiração para o sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz e a figura do caçador-comprador de ratos. Ele usou como base as descobertas do cientista franco-suíço Alexandre Yersin (1843-1943), que havia identificado o bacilo da peste em 1894, provando que a sua transmissão ocorria pelas pulgas do rato. Mas a ideia de caçar roedores não era nova. Já havia sido testada e aprovada nas Filipinas.
Os “ratoeiros” foram criados por um decreto de setembro de 1903. Eles tinham como obrigação recolher 150 ratos por mês, pelos quais recebiam 60 mil réis, o que serviria para comprar uma cesta básica na época. O salário considerado baixo, era um estímulo para que capturassem mais ratos, já que recebiam 300 réis por animal excedente, quantia equivalente a três cafezinhos. Por isso, não paravam de sair às ruas – principalmente na zona portuária, onde a incidência da peste era maior – munidos de ratoeiras, venenos e potes com creolina, onde colocavam os ratos capturados. E ainda usavam uma pequena corneta para anunciar sua chegada. Esse funcionário pagava a quem recolhesse ratos na rua e revendia os animais para o governo.
Alguns cariocas aproveitavam para levar vantagem nesse comércio, criavam os roedores em currais e até os “importavam” de cidades vizinhas, como Niterói. Entre os animais incinerados no Desinfectório Central estavam alguns feitos de papelão e cera.
No entanto, os números comprovam que a campanha foi um sucesso. Nos primeiros meses em que esteve em vigor, de setembro a dezembro de 1993, de acordo com relatórios de Oswaldo Cruz, foram capturados e incinerados mais de 24 mil ratos. Já no ano seguinte, esse total chegou a quase 296 mil. Em 1907, quando a operação começou a diminuir, foi divulgado o número oficial de 1,6 milhões de ratos incinerados nos quatro anos anteriores.
Toda essa caça teve resultados positivos: à medida que o número de ratos diminuía na cidade, a quantidade de óbitos por causa da peste bubônica declinava progressivamente, passando de 360 em 1903, quando a operação começou, para 73 em 1907.
Criadores de ratos
Em 1903, ano em que surgiram os ratoeiros no Rio de janeiro, o governo do Peru também decidiu comprar ratos da população. Mas, assim como os cariocas, os peruanos souberam lucrar com a medida: começaram a criar ratos em currais. Com isso, a compra foi suspensa, e funcionários públicos passaram a caçar os roedores.
A prática da caça aos ratos chegou a ser ressuscitada em abril do ano de 2010, durante uma epidemia na região de Chicama, no litoral norte peruano. Mas a forma de combate foi diferente da usada no início do século XX. Desta vez, o governo peruano só capturou ratos num raio de 300 metros das casas dos doentes, e não na cidade toda. Além disso, resolveu não dar chance à malandragem e preferiu não pagar pelos roedores capturados.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a peste bubônica ainda persiste em alguns países, como China, Índia e Moçambique – mas de forma controlada. As descobertas científicas sobre a doença feitas no final do século XIX e no início do século XX, combinadas com a difusão dos antibióticos, permitiram que ela desaparecesse da maior parte do planeta.

(Adaptado de matéria da Revista de História da Biblioteca Nacional – ano 6, nº 67, abril de 2011 – Postado por professor José Antonio Dias no site: Biorritmo – Ciência e consciência no ritmo da vida com o título: “Quando os ratos valiam dinheiro”)

Desenvolvido por CMC Multimídia
Tamanho da fonte
Modo Contraste