Proseando : UNIDOS PELA MORTE

Por Maurício Cavalheiro

Tímido ao extremo, depois de protelar por meses, finalmente resolveu confessar o amor que nutria pela moça da loja no shopping. Para isso, passara madrugadas elaborando a abordagem, a fim de que o momento fosse inesquecível. Decidira que compraria flores e anel de ouro para impressioná-la. Entretanto, há meses estava desempregado e suas economias, extintas.
Procurou anúncios nos jornais, percorreu a cidade toda e encontrou única oferta de emprego, numa funerária. Engoliu o orgulho de administrador de empresas e se candidatou.
– Quando posso começar?
– Já começou!
Os primeiros dias foram difíceis. O ambiente o reconduzia à infância cheia de medos, de assombrações, de histórias sobre fantasmas. Embora acreditasse que tudo era invencionice para assustar crianças, não conseguia evitar arrepios toda vez que via um cadáver. Mesmo assim, em pouco tempo conseguiu dominar a tanatopraxia, procedimento de preparação do cadáver para o velório: higienizar, lavando o corpo com detergente; enfiar chumaços de algodão nas narinas e na garganta; rasgar a coxa para inserir formol na artéria femural e, assim, preservar o cadáver até o momento do enterro; etc.
Trabalhou duro. Assim que recebeu o primeiro salário, disse aos colegas que sairia para comprar presente para a futura namorada.
– Agora não vai dar. O chefe ligou, pediu pra você preparar um corpo. Vítima de assalto. Já estão trazendo o presunto. Não vai demorar.
– Mas…
– Você conhece o chefe: se não obedecer… rua.
– Tem razão. Para quem já esperou tanto tempo, um dia a mais, um dia a menos, não fará diferença.
O corpo chegou instantes depois.Ele, assim que entrou na sala para iniciar os procedimentos, teve infarto fulminante. O cadáver era o de uma linda moça, daquela linda moça da loja no shopping: sua ex-futura namorada.
Se o fato aconteceu ou não, pouco importa. O que importa é que o amor não perdoa atrasos.

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