Proseando : UM AMOR DE SOGRA

Por Maurício Cavalheiro

O metalúrgico cumprira mais um expediente naquela madrugada.Chegara triturado, moído qual carne de segunda em plena sexta-feira, desmoronando-se no sofá da sala. A energia que lhe restara, usara para alforriar os dedos espremidos das botas desconfortantes e esparramar-se no leito. As pálpebras não suportaram o cansaço.
– Tá pensando que minha filha é escrava pra ficar limpando suas imundícies? Saia já desse sofá! Sua roupa está imunda, porco!
A velha rechonchuda, tripulante da arca de Noé, escorregava os óculos para a ponta do nariz, colocava as mãos na cintura, franzia o cenho, vociferava. De vez em quando, precisava reposicionar a dentadura que ameaçava escapulir da boca murcha e fedorenta.
– Tá esperando o quê? Vá tomar banho, seu porco!
A sogra arrastava-se, equilibrando-se na bengala que herdara do marido. Bisbilhoteira, invasiva, fuçava em tudo, dava palpite em tudo.
– Você chama aquilo de geladeira? Só se for na casa da sua mãe. Toda vez que abro a porta da geladeira da minha filha, sabe o que encontro dentro? Nada! Nada! Nadica de nada! Quer dizer, nada, não. Água tem pra dilúvios. Minha filha não saiu de casa pra passar fome, não, tá me entendendo?
Era sempre assim. Certa vez, ele alterou a voz. Gritou. Enfureceu-se. A esposa passou mal.Com fortes dores no peito, teve que ser levada, às pressas, ao hospital. Diagnosticaram estreitamento das coronárias. Desde então, ele passou a engolir sapos, brejos inteiros. Arriscava-se apenas quando a esposa não estava em casa.
– Genrinho querido, do meu coração! Vou falar só mais uma vez. Prestenção! Você ainda não aprendeu a fazer xixi dentro do vaso? Segura esse negócio direito e mira bem. Se não consegue acertar em pé, faça sentado. Ninguém aguenta entrar naquele banheiro fedorento. Fique sabendo que minha filha não é sua empregada! Entendeu?
“Ah, não! Essafoi a gota d’água. Transbordou!” – pensou. Aproveitou que a esposa tinha saído; berrou:
– Velha rabugenta! Cale essa boca fedida e vá pro inferno!
A sogra inflou-se, arregalou os olhos e ensaiou réplica. Abriu a boca, mas não conseguiu articular palavra. Ele ria. Gargalhava. Gargalhava cada vez mais alto. Mais alto. Mais alto.
– Amor! Amor!
O metalúrgico acordou devido às sacudidelas da esposa. Só disfarçou a felicidadequando a viu em prantos.
– Por que está chorando, meu bem?
Ela, com olhos acachoeirados, soluçando, explicou:
– Mamãe… Acabei de receber um telefonema. Mamãe… Mamãe morreu!

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