História : Uma campanha de combate ao mosquito transmissor da febre amarela na Pindamonhangaba do ano de 1928

Por Altair Fernandes Carvalho

Há 90 anos a Inspetoria Sanitária local, com auxílio da Prefeitura, realizou um trabalho de extinção de focos
de larvas do ‘Stegomia fasciata’, mosquito veiculador da febre amarela

Naquele ano o município de Pindamonhangaba só contava com uma Inspetoria de Saúde, órgão que era subordinado à Delegacia de Saúde, cuja sede era em Guaratinguetá. Com o reaparecimento da febre amarela no Rio de Janeiro, na época capital do Brasil, o presidente Washington Luís iniciou uma campanha rigorosa de extinção dos focos procriadores de larvas do ‘Stegomia fasciata’, veiculador da terrível moléstia.
Por conta disso, todas as inspetorias sanitárias sob a jurisdição de Guaratinguetá, que tinha na chefia o Dr. Adamastor Cortez, receberam circular referente ao assunto, com as devidas instruções de combate ao mosquito.
Tendo como fonte um exemplar da edição de 26/8/1928 da extinta Folha do Norte, histórico semanário local, relembramos aqui como foi importante a campanha em Pindamonhangaba
Com o título ‘Serviço Sanitário – Extinção de Mosquitos’, a matéria iniciava destacando como “uma obra digna de aplausos” o serviço realizado pela Inspetoria Sanitária com o auxílio da Prefeitura. O inspetor sanitário de Pinda era o higienista Dr. Ernani Fonseca; o prefeito era o coronel Benjamin da Costa Bueno.
O plano de ação estabelecido pela Prefeitura e Inspetoria, segundo a Folha, havia sido “nos moldes os mais práticos e modernos, sem deixar de atender na sua parte estrita as condições da populações suburbanas.”
A Prefeitura colocara “uma turma de homens” à disposição da Inspetoria, para que fossem iniciados os serviços mais urgentes. Revelava o redator da FN que em 15 dias de “tão úteis serviços de expurgo dos mosquitos”, tinham o prazer de constatar pessoalmente a melhoria obtida, exaltando que tudo estava sendo realizado “com metódica precisão, dentro de um exíguo orçamento”. Porém, os resultados “de tão grandes e patrióticos esforços era consideráveis”.

Obras e limpezas em quintais
Para informar a seus leitores, o jornalista da Folha do Norte havia percorrido os locais onde haviam sido ou estavam sendo realizados os serviços. Na rua Bicudo Leme, relatava, vira largas sarjetas em ambos os lados, a começar da rua Francisco Glicério (via que cruza a ‘Bicudo Leme’), e que nos encontros das referidas ruas haviam sido construídas ótimas e duradouras galerias para a escoação natural das águas pluviais. Descendo a ‘Bicudo Leme’, destacava que nas laterais ele observara a existência de “valetas amplas onde as vertentes, as águas servidas e as águas da chuva teriam um curso que as manteriam limpas de detritos.
Para os proprietários de casas e terrenos marginais à “Bicudo Leme’ e demais ruas do centro urbano, a Inspetoria Sanitária impusera a remoção de todo lixo de seus quintais, incluindo recipientes que pudessem estagnar águas. A Inspetoria também havia conseguido junto aos proprietários de pastos, chácaras e quintais, a drenagem de todos os terrenos da referida rua Bicudo Leme e também da ‘Francisco Glicério. Já na rua Rodrigues Alves (Boa Vista), contava o articulista da FN, os serviços de drenagem estavam sendo executados, “iniciando pela parte onde desemboca a rua Amador Bueno”. Estas obras, contava, tinham sido executadas “com grandes vantagens para os moradores, porquanto além de abauladas, as ruas haviam recebido galerias para escoação das águas, tendo sido até empregado o serviço de estiva”. Comentava também que anteriormente, na junção das duas vias mencionadas (‘Francisco Glicério’ e ‘Amador Bueno’), na ocasião das chuvas o trânsito era quase impossível.

Vasculhamento e abertura de valetas
Prosseguindo, mencionava a praça Cornélio Lessa, o Bosque da Princesa, contando que aquele local passara por um vasculhamento higiênico e ali também tinham sido abertas algumas valetas a mais”, a fim de dar escoamento para o rio Paraíba.
Seguindo o itinerário, na rua Monteiro de Godoy “o problema de remoção de recipientes de águas estagnadas foi um caso sério”, contava o articulista. Naquela localidade, fizeram uma remoção de latas velhas de todas as casinhas e terrenos baldios existentes. Segundo registrou a FN, um total de duas mil latas, que foram utilizadas no aterro de grandes buracos existentes em frente ao matadouro (local onde se encontra instalado o Departamento de Serviços Municipais). Os buracos que fecharam teriam sido feitos para a extração de saibro.
Galeria na Praça X
Do hoje conhecido bairro do Bosque, o jornalista da Folha retornou à região central da cidade, passando a comentar trabalho realizado em um logradouro que havia ao lado da praça Monsenhor Marcondes (à sua direita no sentido bairro/centro), local que identificamos como sendo a Praça X. Nessa praça estava sendo construída uma galeria de cimento armado para receber as águas dos quintais das casas da rua dos Andradas, incluindo o Éden Cinema, águas essas que iriam inclementar o fluxo das galerias da rua Gustavo de Godoy.
Pesquisando alguns dados sobre este logradouro ficamos sabendo que era uma área que atualmente compreende o quarteirão formado pela rua Dez de Julho e rua dos Expedicionários, com frente para a ‘Tibiriçá’ e fundos para a ‘Coronel Fernando Prestes’. A razão da denominação ‘Praça X’ se explica pelo fato de que naquele tempo duas trilhas cruzavam a referida área, formando um xis. Uma trilha saindo da rua Dez de Julho e seguindo em diagonal até o cruzamento da ‘Fernando Prestes’ com a rua dos Expedicionários, e outra saindo (também em diagonal) da esquina da rua dos Expedicionários indo até a esquina com a ‘Fernando Prestes’. Já o Éden Cinema era o cinema que funcionava em um prédio onde agora se encontra a Caixa Econômica Federal ou nas proximidades.
Concluindo a matéria, a Folha do Norte elogia a atuação da Inspetoria Sanitária e Prefeitura na campanha contra a proliferação do ‘transmissor da febre amarela, complementando que em recente visita a Pindamonhangaba, o delegado de saúde de Guaratinguetá, Dr. Adamastor Cortez, ficara impressionado com os serviços com tal finalidade que já haviam sido realizados no município em tão curto espaço de tempo.

  • Antigo matadouro municipal na rua Monteiro de Godoy
  • À esquerda, o Bosque da Princesa de antigamente, retratado em bico de pena pelo artista Renato San Martin
  • À direita, a “Praça X” mencionada na matéria; à esquerda, a“Monsenhor Marcondes”
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