História : Uma crônica da Pindamonhangaba de 1935

Por Altair Fernandes Carvalho

É de um exemplar do extinto jornal ‘A Cidade’, edição de 30 de junho de 1935, o material que ilustra a página de história desta edição. Sob o título ‘Grifaes”, o articulista inicia seus escritos em estilo algo poético, porém logo se vê que sua intenção é por intermédio da sátira, da jocosidade, tecer críticas e indiretas a determinados cidadãos (talvez, nomes fictícios) e coisas do município, não poupando nem os assinantes devedores de seu jornal…
Em texto constituído de humor irônico e provocativo, o redator assim vai pincelando o quadro de uma manhã na cidade de Pindamonhangaba dos anos trintas…
Vem uma lufada de vento. As brumas que envolviam as cousas, desvanecem, e o sol, com os seus raios dourados cindi, famélico e insofrido, a terra úmida de orvalho. Mais um dia começa…
O mortal, com os olhos habituados à escuridão e ao sono de muitas horas, ante aquela orgia de luz, embriagado pela claridade violenta, tem a sensação de quem vê erguer-se uma cortina gigantesca que velava um cenário colossal e maravilhoso…
Realmente, Pindamonhangaba, banhada de luz, numa manhã de junho, sob um céu de imaculado azul, é uma cidade maravilhosa, como as das lendas…
E não lhe faltam nem as fadas, nem os fados e muito menos os monstros!
“As fadas, são as gentilíssimas, mimosas e simpáticas conterrâneas que leem ‘A Cidade’ e lhe desejam todo o bem, os fados são os distintos patrícios que a assinam e pagam alegremente a sua assinatura sem mostrar cara feia ao nosso cobrador solerte!
E os monstros da cidade luminosa? Um deles está lá embaixo, aos pés da cidade, com o ventre assentado na lama negra do seu leito e o dorso enrugado e movediço cintilando ao sol e – quem o saberá? – talvez gerindo algum habitante incauto que lhe caiu na face eternamente escancarada: – é o Paraíba!
Outros estão disseminados por todos os âmbitos da cidade, em ameaça constante à população, a todo o momento dispostos a partir crânios, arrebentar pernas e costelas e, quase que diariamente tirando lascas de calcanhares: – são os V-8 coriscantes, as velhacas e os Lâncias e Chevrolet – Tigres!
Neste último parágrafo, como o leitor já deve ter entendido, o cronista referia-se aos veículos automotores da época e ao trânsito na Pinda dos anos trintas. Prosseguindo, classifica também como monstros e monstras, os inimigos daquele órgão da imprensa interiorana e, particularmente, as senhoras: Dona Ignez, Dona Anna e as ‘Carlotonas”.
Completa a crônica com um interessante diálogo, uma fofocada cujo tema acaba abordando os direitos de uma empregada doméstica…
– Mas, caramba! Tão cedo, mal suspende o pano; mal os padeiros começam o dlin-dlin-dar pelas ruas, e já a senhora à janela, Dona Anna?…
– Não se admire, rapariga; é um hábito antigo, que me proporciona os meios de colher novidades da terra, antes da dorminhoca comadre Ignez…
– Onde está empregada?
– Na casa do senhor fulano.
– Quanto
– Quanto ganha?
– Quarenta mil réis.
– Que serviço faz?
– Cozinho, lavo, varro, nas horas vagas, pajeio , e …namoro soldado no portão…
– Tanto serviço, por quarenta mil réis!…
– O que comem na casa do Sr. Fulano?
– O trivial costumeiro de todos os dias… Só no domingo que as coisas se ‘desferenceam’…
– Como assim?
– No domingo, lá, só se comem ‘porcarias’…
– Credo! Explique-se, rapariga.
– Doces, bolos, chá, frutas do mercado, sorvetes, sanduíches de presunto, etc., etc.,. Isso é pra dar uma folga aos criados.
– Folga, hein? Já falaram pra você do decreto do governo que cerca de garantias as domésticas? ]sabe quem são as criaturas de ‘natureza doméstica’?
– Sei, sim, senhora: todos os animais como os gatos, os cachorros, as galinhas, os cabritos e outros moluscos…
– Estúpida! Domésticas somos nós todas… Nós, as patroas, somos as domésticas de nossos maridos, aos quais, por nossa vez, domesticamos a cabo de vassoura! As nossas filhas, conforme o Sr. Matheusinho decreta e o Sr, Canineo edita, são animaizinhos finos ‘de prendas domésticas’… E vocês, criadas, são operárias de natureza doméstica, hoje cercada de todas as garantias da ‘lei da segurança’, isto é, das companhias de seguro…
– Por exemplo: se você morrer, pode ficar descansada: seus direitos serão respeitados, seu enterro será realizado sem demora e estará com independência feita!
– Com licença, Dona Anna…
– Mais uma palavrinha só, rapariga… Quando você tiver uma dorzinha de dente, uma azia, uma indisposiçãozinha, embora muito leve, não seja tola, fique em casa, avise apenas a sua patroa e, no fim do mês, mande procurar o ordenado!

  • O veículo que aparece na Ilustração, bico de pena de Renato San Martin (do livro,Pelas Velhas ruas de Pindamonhangaba, 1995) é uma montagem computadorizada
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