Nossa Terra Nossa Gente : AS OBRAS DE EUCLIDES DA CUNHA EM PINDAMONHANGABA

Muitos conhecem o consagrado escritor Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões” (1902), obra que entrou para a história da Literatura Brasileira como um marco admirável registro de um repórter que esteve no front da rebelião de Canudos, na Bahia, para noticiar aos periódicos mais conceituados do Brasil, a “Troia de taipa dos jagunços”.

Poucos conhecem o engenheiro de obras públicas Euclides da Cunha, que realizou um notável trabalho no Vale do Paraíba e Litoral Norte, inspecionando pontes, estradas e prédios públicos, dentre elas, importantes obras em Pindamonhangaba: a ponte sobre o rio Paraíba, o Grupo Escolar Dr. Alfredo Pujol e a estrada para o alto da Serra da Mantiqueira.

Segundo Rômulo Campos D’Arace (A Tribuna, Taubaté, 28. 10.1953), as solicitações da construção da ponte sobre o Rio Paraíba foram motivadas por um pedido da Câmara Municipal dos Vereadores à Superintendência de Obras Públicas do Estado (Auto nº. 5.725, de 23.8.1902): “A ponte em questão é uma propriedade do Estado, que, além do seu próprio valor, tem de ser passagem insubstituível em estrada de grande concorrência, ligando grande parte do 2º Distrito com o Estado de Minas. E ponto de passagem forçada da estrada de Pindamonhangaba a São Bento do Sapucaí e, se não for desde já reparada, tornará inúteis as despesas recentemente feitas com consertos daquela e as que se fizerem com a conservação, prestes a ser contratada. Permite, ainda agora, bem que com dificuldade, passagem a pedestres e aquela ponte ficará, dentro em pouco, de todo imprestável e se considerarmos que com a entrada das chuvas, os cavaleiros e viaturas não poderão como agora fazem, vadear o rio, sem ponte a jusante, significa isto interrupção forçada a um tráfego muito grande, conforme tive ocasião de observar”.

Euclides não só assumiu a inspeção das obras da referida ponte como, também, a reparação da estrada de Pindamonhangaba ao alto da serra, com bifurcação para Santo Bento do Sapucaí e Campos do Jordão.

Essas viagens de inspeção – em lombo de burro e, quando muito, em troles – eram uma verdadeira travessia. Numa dessas inspeções, relata Vicente Giudice (Correio Paulistano, 28. 11. 1954), o trole que transportava os engenheiros Euclides da Cunha eSantiago Stornini ficou atolado em grande lamaçal causado por uma tempestade de verão. Foram socorridos pelo Dr. José de Gouvêa Giudice que lhes ofereceu pernoite na Fazenda São José, a cerca de dois quilômetros da estrada de rodagem.

Euclides chegou no lombo do cavalo do gentil anfitrião e, Giudice e Stornini, a pé ecobertos de lama. Após o banho e o jantar, ficaram a conversar por muito tempo e, Euclides da Cunha, encontrando ouvidos atentos, contou histórias inesquecíveis das peripécias de suas andanças peloVale do Paraíba.

A supervisão das obras de construção do Grupo Escolar Dr. Alfredo Pujol, também narrada por D’Arace com detalhes históricos riquíssimos de sua inauguração, aviva informações que muitos egressos da centenária escola desconhecem:

As obras foram executadas pelo engenheiro Santiago Stornini, fiscalizadas pelo Dr. Euclides da Cunha, engenheiro da Superintendência de Obras, e obedeceram a uma planta do Dr. Francisco Viotti. O seu custo total foi de 140: 000$000. O edifício é espaçoso, de arquitetura moderna e elegante, contendo as seguintes dependências; dez salas para aulas, um salão para festas e recepções, um gabinete para o diretor, uma biblioteca e um laboratório”.

D’Arace relata que no dia da inauguração do Grupo Escolar, ocorrida em 7 de dezembro de 1902, Euclides da Cunha foi homenageado na residência do Intendente Municipal, o Dr. Francisco Marcondes Romeiro, pela publicação e retumbante êxito, na mesma ocasião, do imortal “Os Sertões”.

Decorridos 120 anos das peregrinações de Euclides da Cunha por Pindamonhangaba, temos aqui três de seus feitos – a ponte, a escolae a estrada -, obras da engenhosidade de um escritor-engenheiro que se eternizou desbravando os seus sertões…

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