Proseando : CASO DE POLÍCIA?

Por Maurício Cavalheiro

Havia pouco tempo que se mudaram para o bairro, na rua onde moro. A mulher de cabelos longos, cheirosa de perfumar quarteirões, corpo escultural espremido no shortinho ou despreocupadona minissaia esvoaçante, deveria ter uns vinte e cinco anos. Para ser sucinto: morena de parar o trânsito. Ele era um quase fisiculturista. E isso basta.
Nos primeiros dias demonstraram ser um casal normal, talvez recém-casados, devido aos inúmeros e incansáveis beijos trocados ali mesmo, na rua. A vizinha puritana, que se vangloriava da virgindade aos noventa e tantos anos, repudiava,mas não perdia nenhuma daquelas cenas: “Que escândalo, meu Deus!”.
Tudo estava tranquilo até a chegada do Barbudinho, apelido atribuído pela vizinhança àquele rapaz de caminhar desengonçado. Chegou numa tarde em que o quase fisiculturista não estava. A moça, linda de parar o trânsito, o recebeu com caloroso abraço e suave e breve beijo. Entraram. Pouco depois, o suposto marido da moça de parar o trânsito, apareceu. Entrou.
Era início de noite quando o fato ocorreu. A paz do bairro foi interrompida por gritos e impropérios. Curiosos saíram à rua, inclusive eu, tentando ouvir os insultos que o casal trocava. Tratava-se de infidelidade. “Por que você me traiu com esse idiota?”. Ela tentava acalmá-lo: “Não fique assim. Aconteceu. Você não me procurava mais”. “Va-ga-bun-da!”.
A vizinha puritana colocou cadeira na calçada e foi buscar bacias de pipoca. Outros vizinhos fizeram o mesmo. Contribui com refrigerantes. Porém, para decepção de olhos e ouvidos atentos, não houve mais nenhum pio.
Quando alguns começaram a guardar cadeiras, o espetáculo reiniciou. “Vagabunda! Vou encher você de porrada! Vou quebrar a sua cara!”. A mulher chorava, gritava, implorava piedade. “Pelamor de Deus! Me perdoa!”.
Trouxeram as cadeiras de volta.
No instante em que a tragédia parecia iminente, a vizinha puritana ligou para polícia e exigiu: “Lei Maria da Penha pra esse cafajeste!”.
Assim que a viatura estacionou, fomos até a casa do casal para acompanhar a prisão do agressor. Houve quem sugerisse linchamento. Os policiais entraram com arma em punho e não demoraram. Saíram dizendo que tudo não passava de um mal-entendido. Refutamos quando vimos a moça de parar o trânsito, cheia de hematomas.
– Isso é maquiagem, meu bem – revelou o rapaz de caminhar desengonçado,enquanto removia os hematomas.
E a moça de parar o trânsito arrematou:
– Estávamos ensaiando uma peça teatral que, pelo jeito, será um sucesso, pois o que não nos falta é plateia.

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