Nossa Terra Nossa Gente : DA JANELA DOS OLHOS DE DEA D’ALESSANDRO, A INFÂNCIA EM PINDAMONHANGABA

Por Juraci de Faria

“Lembro-me de repente de quando era criança, e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade.”
O Livro do Desassossego/Bernardo Soares
(Fernando Pessoa)

A fotografia do porta-retratos sobre o piano da sala de estar me cativa: é Dea D’Alessandro, aos 10 anos, quando iniciou as primeiras lições de piano com as irmãs do Colégio Bom Conselho, em Taubaté. O instrumento alemão do início do século 20, foi presente de casamento de seu avô Sergio Marcondes Salgado à sua avó Durvalina, exímia pianista de bailes e saraus na vizinha São Bento do Sapucaí – SP, município em que Déa nasceu e viveu os primeiros cinco anos de vida.
O olhar da menina de tranças me transporta para sua infância e, sem pestanejar, peço que ela afaste a cortina do tempo e me conte as lembranças daquela “sua” Pindamonhangaba.
Filha do médico Dr. Paulo Emílio D’Alessandro e de D. Aparecida, Dea cresceu entre os irmãos Léa e Paulo Sérgio, na casa avarandada da Rua Prudente de Moraes em que hoje reside. Assim como uma caixinha de segredos, esta casa guarda valiosas histórias que a menina, guardiã da memória de seus afetos, abriga no coração. Vejo suas pequeninas mãos tocarem a chave de ouro que abre a portinhola da sua infância e me embeveço com suas lembranças…
As brincadeiras preferidas eram com “bonequinhas de papel” junto das amiguinhas Norma e Valderes na garagem de sua casa e, também, na casinha de madeira das primas Kátia e Mayse, no casarão de sua tia-avó Henriqueta. Confessa que adorava brincar de “rainha e princesa” no vão da escada da “Casa do Fogo” com Berenice e Silvia (herdeiras desse monumento histórico que deu lugar à Praça do Fórum) e, também, aquelas à sombra do cajueiro e das jabuticabeiras, entre as flores do jardim e os canteiros de plantas medicinais do quintal de sua casa.
Do curso primário recorda com carinho das professoras do Grupo Escolar Alfredo Pujol e, dentre muitas colegas, de Maria Hilda Guimarães Paim, amizade que, por graça divina, cultivam até hoje! Avivam-se de alegria seus olhos ao relembrar as brincadeiras de roda, de pega-pega e pique-esconde nos recreios. As férias escolares? Mais do que sonhadas, inesquecíveis! Na vizinha São Bento de Sapucaí, na Fazenda Serrano e no casarão dos seus avós.
A sua religiosidade também tem sementes na infância. Das missas e procissões celebradas na Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso às aulas de catecismo ministradas pelosaudoso Pe. João. Após as aulas de catecismo (às 13 horas de domingo), a tão sonhada diversão: andar de patins na Ferroviária ou ir à “matinée” no Cine Brasil!
A menina passeia de braços dados comigo pelas ruas de “sua” Pindamonhangaba com suas praças e seu casario secular, pelo Bosque da Princesa e tantos outros lugares que seus olhos viram e os meus puderam contemplar guiados pelos dela.
O que eu vislumbrei através da janela de seus olhos?
Um coração terno e generoso, feito ninho de sabiá de setembro nos galhos mais altos da sua infância em flor. Nesta primavera florescida de ipês-amarelos, azaleias e amores-perfeitos, ofereço um buquê de flores para presentear a menina que em Pindamonhangaba cresceu, tornou-se professora de História, diretora de escola, esposa de Carlos Maria Monteiro Gomes, filha querida desta terra e amiga de toda gente! Da janela de seus olhos, Dea Aparecida D’Alessandro Monteiro Gomes, eu vi “a manhã raiar sobre a cidade!”.

  • O olhar da menina de tranças (Dea quando menina) me transporta para sua infância...”
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