Proseando : DESENCONTRO

Por Maurício Cavalheiro

Sr. W era um quarentão que jamais trabalhara, mas isso não o obstruía de usar roupas caras e frequentar locais badalados na capital paulista, sempre em companhia de belas mulheres. Essas regalias eram forçosamente patrocinadas pela pensão que a mãe recebia do finado coronel.
As mulheres que saiam com ele eram seduzidas através das redes sociais. Ele as envolvia em meia dúzia de poemas elaborados com versos usurpados de Vinícius, Camões, Bilac e, logo na primeira abordagem, oferecia o número do iPhone.
O flerte atual se arrastava por semanas, mas valeria a pena a julgar pela única fotografia estampada no perfil: morena, olhos azuis, 22 aninhos, corpo esculpido em academias.
– Me mostra mais fotos, meu amorzinho. Quero apreciar todos os ângulos de sua beleza.
– Ah, querido. Me desculpe. Não gosto de me expor.
– Desculpo se aceitar um café no ‘Pé de Manga’ para nos conhecermos pessoalmente.
Breve silêncio.
– Você tem me tratado com delicadeza, carinho e romantismo. Pensei que homens assim estivessem extintos. Impossível resistir. Irei sim. E para que não me confunda com outra, levarei minha Yorkshire.
Naquela tarde, comprou rosas vermelhas e, no horário combinado, estava à mesa, no aconchegante café e restaurante da Vila Madalena. Enquanto esperava, sonhava, planejando levá-la ao quarto de hotel mais luxuoso da cidade. Quando se deu conta que estava muito atrasada, decepcionou-se. “Ela não vem!”. Levantava-se para ir embora quando sentiu delicado toque nas costas.
– Sr. W?
Com o coração batendo mais forte do que bateria de escola de samba, olhou para trás e viu a senhora de cabelos brancos, olhos azuis, afagando uma Yorkshire.
– Que brincadeira é essa?
– Brincadeira? Eu…
– Cale a boca, velha! Me fez perder tempo, me fez acreditar que era jovem, linda, delicada. Mentirosa!
Jogou o ramalhete no chão e sambou sobre ele. Depois, partiu enfurecido. A cachorrinha, que não parava de latir, se desvencilhou com o intuito de mordê-lo. Somente depois de algumas quadras, ficou seguro. Cansado, sentou-se na calçada. O iPhone tocou.
– Alô, Sr. W. Que papelão, hein!? Onde foi parar a sua educação? Quem você pensa que é? Um predador que se veste de mesuras para enganar mulheres? Eu não devia, mas vou lhe explicar: enfrentei engarrafamentos. Estava estacionando o carro e minha avó, gentilmente, se ofereceu para ir avisá-lo.

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