Proseando : MADAME FILÓ

Por Maurício Cavalheiro

O ritual se repetia em todas as manhãs. Antes de ir para o escritório o marido fingia beijos carinhosos e ela acreditava. Depois dos beijos ele fechava a porta e ela ia espiá-lo pelas frestas da persiana. Precisava ter certeza de que não voltaria, pois não queria correr risco de ser flagrada retirando a mala escondida atrás do armário.
Ele a proibira de trabalhar fora, até mesmo naquele momento em que a inadimplência dos clientes motivava cortes profundos nas despesas. Porém, como precisava de dinheiro para as necessidades pessoais, encontrou meio de ganhar algum.
A mala escondia apetrechos que ganhara na conclusão do curso de vidência por correspondência, feito às escondidas. Nela havia peruca, colares, pulseiras, brincos e bola de cristal. Incluiu lentes de contato azuis. Achava lindo! A maquiagem a deixava irreconhecível.
Quando o marido saía, ela pegava a mala e entrava no ônibus com destino ao bairro vizinho. A amiga, que viajara para a Europa, deixara a casa aos seus cuidados. Fizera mais do que isso. Colocara placa no muro: “Madame Filó prevê o futuro. Entre e confira”. Ganhou fama.
Naquele dia, perto da hora de ir embora, quase enfartou ao receber um cliente ilustre: o marido. Pensou que descobrira a farsa e que viera desmascará-la. Mas, não. Ele entrou trêmulo na sala em penumbra. Ela disfarçou a voz.
– Sente-se. O que o senhor deseja saber?
Nervoso, ele transpirava e tamborilava os dedos na mesa.
– Quem será o campeão paulista?
– Palmeiras! – Ele era corintiano e ela detestava futebol.
– Pode me dizer quem será o futuro presidente do Brasil?
– Outro corrupto. Mas não é isso que o senhor quer saber. É?
Ele enxugou o suor com um lenço e confessou:
– Não. Estou tendo caso com minha secretária. Estou montando apartamento pra ela. Quero saber se ela também me ama.Madame Filó quase explodiu. “Então a penúria a ela imposta era por outro motivo? Cafajeste!”. Pensou em enfiar as unhas no pescoço dele e furar as carótidas. Mas conteve-se. Respirou fundo e passeou as mãos sobre a bola de cristal.
– Vejo aqui que o senhor é casado.
– Sou. Com uma baranga, ruim de mesa e pior de cama.
O comentário infeliz foi a gota d’água. Madame Filó socou a mesa com tanta força que a bola de cristal se espatifou no chão. Enfurecida, gritou:
– Quer saber? Sua secretária é uma vagabunda, uma pervertida. Já foi pro motel com o escritório todo. Outra coisa: melhor o senhor não voltar mais pra casa. Sua esposa faz planos para matá-lo.

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