Proseando : motim

Por Maurício Cavalheiro

Relâmpagos rasgavam o céu noturno açulando o oceano, enquanto trovões mergulhavam no intuito de despertar Netuno. O vento uivava sinfonias fúnebres. No pequeno bote de madeira, sobreviventes enfrentavam ondas gigantescas do Atlântico.
– Vamos morrer!
O comandante engolia o agouro e tentava insuflar otimismo na tripulação.
– Sejam firmes, marujos! Sejam firmes! Daqui a pouco estaremos em casa!
Por frações de segundo a esperança brotava, e morria estraçalhada pela tempestade.
– Eu avisei que o mar não estava pra peixe. Eu avisei.
– Pai nosso que estais no céu santificado…
– Tava na cara que aquela banheira pesqueira toda remendada ia afundar. Onde eu estava com a cabeça!?
– Eu não quero morrer!
O comandante precisou vociferar para exterminar a histeria.
– Calem a boca! Vocês são homens ou ratos? Segurem firme os remos e remem, se têm amor à vida.
Durante a reprimenda, o comandante descuidou-se, e onda mais agressiva o levou para as profundezas. Não havia tempo para sentimentalidades e heroísmo. Precisavam definir quem assumiria o comando. Após votação apertada, o eleito estabeleceu rumo contrário ao do antecessor.
– Você está louco! Quer que a gente morra?
– Confiem em mim. Sei o que estou fazendo.
Esticou o indicador na direção do céu e concluiu:
– Observem o pequeno espaço límpido. As estrelas do Cruzeiro do Sul nos conduzirão de volta pra casa.
Os marinheiros de primeira viagem não aceitaram aquela explicação. Entre os discordantes, o revoltado por não ter sido o escolhido para capitanear a embarcação, enfiou a mão no bolso e colheu o canivete que usava em acampamentos. Secretamente, imprimiu a ponta do objeto no fundo do casco e começou a girá-lo. Não demorou para que o pequeno buraco avariasse o casco. Depois fez outro e mais outro. Ficou em pé e gargalhou dementemente, mostrando a lâmina aos companheiros.
– Por que você fez isso, idiota? Vai morrer sozinho!
Foi aí que percebeu que todos estavam com colete salva-vidas. Exceto ele.
– Me salvem, por favor! Socorro! Socorro! Socooooooooooorro!
Era fim de madrugada. O galo do vizinho logo estufaria o peito para inaugurar a manhã. A velhinha, acostumada com os pesadelos, sacudiu o marido:
– Acorda, meu velho. Acorda! Foi só um sonho ruim.
– Graças a Deus! Mas de onde vem esse cheiro de maresia?
– Adivinha!? Você urinou na cama outra vez.

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