OVO DE PÁSCOA

Por Maurício Cavalheiro

Embora fosse mais feio do que avesso de sogra (a minha é linda, por dentro e por fora), não precisou de esforço para conquistar a bela ruiva: bastou aparecer na balada e se dizer proprietário do Lamborghini que emprestara do amigo. (Quero um amigo desse). Com mês e pouco de namoro trocavam palavras tão açucaradas que seriam capazes de fulminar qualquer diabético. Era benzinho pra cá, benzinho pra lá. Até que um dia…
Domingo de Páscoa, dia em que lhe foi cerceado novos empréstimos do automóvel. Estava no banho quando ela ligou. “Tchutchuzinho, não demore, não, tá? Tô com saudade. Comprou meu ovo? Bem grande, né, mô?”. Ele engasgou, disse que seria surpresa e desligou. Na verdade, esquecera-se do maldito ovo de chocolate. Rapidamente se enxugou, se vestiu e correu ao supermercado, onde encontrou poucos ovos: quebrados. Pensou em ir a outros estabelecimentos, mas, sem carro, demoraria muito. Levaria algum daqueles, danificado mesmo.
Na fila do caixa percebe uma mulher com ovo de 1 kg, intacto. Não teve dúvida: “Quero esse ovo! É por uma causa nobre. Pago em dobro”. Ela manteve a recusa somente até a proposta ser quadruplicada. O triunfo o deixou com a carteira quase desabitada. Com o ovo nas mãos, correu até o ponto de ônibus.
Fila imensa. Considerou esperar pelo próximo, que viria depois de hora e meia. Mas a saudade exigiu que entrasse naquele. Entrou e ficou em pé, espremido entre a obesa e o musculoso com morrinha nas axilas. Proteger o ovo foi tarefa hercúlea, mal sucedida na freada inesperada. Os cento e cinquenta quilos da mulher foram arremessados sobre o ovo e sobre ele. O impacto fez com que o nariz dele se acoplasse à axila fedorenta. Ele não disse um a. Mas o musculoso não deixou por menos. “Gorda! Baleia! Ao invés de encher a pança devia encher o cérebro! Mulheres! Todas iguais. Só servem pra fazer filhos!” Outras passageiras se revoltaram: “Machista! Estúpido! Grosso!”. A situação caminhava para o descontrole quando o ônibus parou no ponto próximo à casa da ruiva. Ele desceu com o ovo esmagado, dores nas costelas e falta de ar. Atravessou a rua e apertou a campainha. A namorada apareceu serelepe, agarrando-o pelo pescoço. Depois de muitos beijos, entregou o ovo amassado e pediu desculpa. Ela não se aborreceu. “Essas coisas acontecem, meu amor. Chocolate é chocolate de qualquer jeito. Não vamos estragar nossa noite por causa de uma bobagenzinha. Vamos sair, curtir, passear no seu carrão.”
A consciência pesou. Era preciso desfazer o embuste. Respirou fundo, engoliu seco e, enquanto ela desembrulhava o ovo de páscoa, revelou que o carro não era dele. Ela parou o desembrulho, fitou-o com olhar glacial e esbravejou:
– Chocolate branco? Detesto chocolate branco! Suma daqui e não apareça nunca mais!


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