Proseando : RECAUCHUTAGEM

Num futuro não tão distante, virando a esquina, do outro lado da rua, na loja de androides de inteligência artificial…

A mulher tamborilava no balcão. Cinco minutos amansando a impaciência, enquanto o atendente entrava e saía do setor de estoque.

— Algum problema? Vai demorar muito? Cadê o meu produto?

Ele enxugava o suor e movia a cabeça, inconformado.
— Era o último da série — sussurrou junto ao computador.
— Eu sei. Você já havia me dito.
— Então… Não está mais no estoque. Vim conferir na planilha. Foi vendido na semana passada.

A mulher afiou os cascos. Espumando, esmurrou o balcão.
— O senhor não tem palavra? Ficamos acordados de que eu viria hoje. Esqueceu?!
Havia outros clientes no estabelecimento.
— Por favor, acalme-se. Olha o escândalo!
— Escândalo? Isso não é nada. O senhor ainda não me viu enfurecida. Quero falar com o proprietário.
— O proprietário? O proprietário sou eu.

Com muito tato conseguiu levá-la ao escritório da empresa, uma sala no fundo da loja. Ofereceu a ela chá de camomila.
— Não tem uísque?

Depois da quinta dose a mulher adocicou-se.
— Mais uma vez peço-lhe desculpas. O seu produto pode ter sido vendido pelo meu sócio ou por um colaborador desatento. Apesar do nosso equívoco, a senhora não sairá daqui de mãos vazias.

Ele cochichou ao ouvido da secretária, que saiu, voltou em poucos minutos e o informou:
— Sinto muito. Não temos mais nenhum do gênero no estoque.

Ele levou as mãos à cabeça. A secretária, antes de se sentar, avisou:
— Ah, estava me esquecendo. Tem outro cliente aí com o mesmo tipo de reclamação.

Ele foi ver. Tratava-se de um homem de meia idade, cabelos e cavanhaque grisalhos, olhos azuis, enfiado elegantemente num genérico terno italiano.

O empresário se iluminou. Levou o homem à outra saleta, ofereceu-lhe doses de uísque, dizendo que havia um produto especialíssimo, superior àquele desejado, e que não lhe custaria nada. Assim que o álcool começou a fazer efeito no cliente, o empresário voltou à presença da mulher.
— Encontramos um modelo com as características que a senhora procura. E lhe será gratuito para compensar a nossa falha.

Estrategicamente, colocaram o homem e a mulher sentados, um de frente para o outro, separados por uma cortina. Sob a ordem do empresário, a secretária descerrou o tecido. Os clientes se extasiaram.
— Você… se parece muito… com o meu… ex-marido. A diferença é o seu charme. Seus olhos azuis. Esse seu terno… Ai, meu Deus. E esse cavanhaque. Assim eu me apaixono.
— E você se parece… com a minha ex. Mas ela não tinha a sua sensualidade. Esses lábios. Esse decote. Esses seios. Nem barriga você tem! Que loiraça! Ah, pra que esperar? Quer se casar comigo?
Conversa vai, conversa vem, souberam que os olhos azuis eram lentes; os seios, silicone; o cavanhaque e o terno, súplicas da ex-mulher; a lipoaspiração, a bioplastia e os cabelos loiros, fetiches do ex-marido.
— Fiquei curiosa. Qual o seu nome?
— Astolfo.
— Astolfo? Filho do Brotoejo? É você mesmo?
— Aricléia? Não acredito!

Trocaram beijos e, de mãos dadas, saíram dali, desconsiderando o divórcio.